segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O natal mais antigo qual tenho lembrança

Parece que foi ontem.

Eu sentado no sofá numa varanda de pedra ardósia, frio, as luzes apagadas, a torneira aberta pingando musicalmente, barriga cheia pois havia acabado de chegar de "uma janta" na casa da minha madrinha Regina. Hoje eu sei que meu pai estava atrasado pra colocar os presentes sobre a cama, mas naquela noite, minha mãe avisava que a gente não podia ainda entrar, o papai noel estava passando.

A porta de madeira com tramela abre e eu subo correndo uma escada de cimento batido vermelho com 4 degraus, escada perigosa, milhares de pessoas caíram dela pra minha diabólica satisfação traquina de criança. O quarto retangular estreito com duas camas a minha frente, a luz está acesa agora. O lençol amarelo perfeitamente limpo e ali, abaixo da cabeceira, ao lado do travesseiro e acima de qualquer suspeita minha, postado misteriosamente por um furtivo presenteador, um fantástico ferrorama estrela.


Ferrorama Estrela, meu primeiro presente que tenho lembrança no natal!

O sorriso no rosto aparece, as mãos se esticam para apalpar uma caixa de papelão magnífica. A mesma é aberta e vem ao rosto um cheiro enebriante de isopor. Cada peça em seu lugar, cada trilho em seu lugar, cada vagão em seu lugar, meus pensamentos em outro lugar, eu era agora um maquinista.

Estrutura montada, pilhas colocadas e o botão no ON. A mágica começa. Horas a fio observando o ir e vir de uma majestosa maria fumaça equipada com 4 vagões, uma maria fumaça controlada que sobe por uma pequena rampa, mas que no fim, anda em círculos, sai de um lugar e volta para o mesmo. Uma maria fumaça que imita os dias de hoje, dias não de criança, dias de ilusão adulta com outros brinquedos menos majestosos. Contudo, maria fumaça que também me faz sentir um maquinista do destino, um maquinista sem olhar externo fiador de uma situação qual me faz pensar se também estou andando em círculos, se tenho o controle da direção ou qual a importância de cada fardo que levo em cada vagão.

Para aquele menino a noite terminou antes das nove horas pois com o final da novela a cama era o destino certo, preparação para um novo dia. Hoje, as noites não tem hora para terminar, a novela da vida não termina em horário programado e a cama que me preparava para um novo dia, essa não tem mais lugar fixo.

A cada ano um planejamento, a cada mês uma realidade a enfrentar. O papai noel ainda existe, mas não vem mais me dar presentes. É preciso correr atrás dele o tempo todo, enfrentando todos os obstáculos possíveis e aí, em um dado momento, um presente é conseguido.

O natal em Medeiros veio, foi e voltou mudado.

Feliz natal a você que luta pelo seu espaço, pelo seu destino e é o maquinista da sua própria maria fumaça.

3 Comentários - :

Jefão disse...

Este texto prova que vc leu Harry Potter na adolecência! ahsuhsauhasuhsauhsauas
Detalhes dignos da J.K Rowling!

Mais ficou bom Mr.Burns! XD

Luciano Freitas Júnior disse...

É meio que estranho, você, Ciniro Nametala, o "Grinch", escrever sobre o natal. O texto apesar de não tão emotivo quanto o texto de alguém que realmente ama o natal, é fácil perceber que você chegou a uma encruzilhada. Espero que dos caminhos possíveis, vc escolha o menos provável, o mais impossível. O caminho da verdade!!

VictorK disse...

Ótimo texto.

Andar em círculos como a maria fumaça do ferrorama...as vezes penso se isso está rolando comigo.

Parabéns

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