quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Amigos e família, renove-os em 2012.

Tarde entediante, tomei um banho rápido procurando uma forma de fazer a barba antes que todo o processo ultrapassasse mais que cinco minutos. Foi legal, eu havia comprado um creme mentolado bozano que gelava o rosto. Sensação de alívio rara em meio a um mar de sensações aflitas que vinham passando.

Ceia na casa da minha madrinha. O senhor lord sentado à cabeceira da mesa era servido por todos. Não apenas servido de comidas, mas de também elogiosas palavras e sorrisos falsos que como facas atravessavam antes o meu corpo, até chegar ao destino, àqueles olhos gananciosos e orgulhosos pelo poder alcançado dentro de um tribal grupo familiar. Tarefa não difícil mas que exige maestria medíocre.

Uma festa entendiante dita de "família", núcleo interrompido há decádas, núcleo frágil que sofre mais do que celebra. E assim, nestes momentos hipócritas se sente na necessidade de comungar uma felicidade não existente. Uma felicidade colhida nos campos da discórdia e do desgosto. Nada que sorrisos singelos não escondam ou que uma salada de giló bem preparada não possa disfarçar. Será que não se questionam "Quem é minha verdadeira família?" "Quem realmente importa pra mim?"



Pra ser bem franco, todos nós passaríamos meses e anos longe de alguns familiares sem sequer sentir o mínimo de falta, e num contra passo medonho, não conseguiríamos passar algumas horas longe de amigos não familiares que por natureza, ou por genética pura, nos completam em afazeres, escolhas e gostos comuns.

"Que tal jogar uma sinuca?"

Voltamos pra ceia e chega o peru assado, o esperado peru assado, momento emblemático! "Quem comprou o peru?" "Quem preparou o peru?" "Quem vai servir o peru?".. questões que vez a vez nos trazem a tona conclusões óbvias e não perceptíveis de que as tarefas relacionadas ao peru são as tarefas politicamente determinadas em um seio familiar. É patético, ou melhor é "peruzético". Um peru que por pouco não entra pelo orifício errado. Toma o caminho mais nobre, o caminho da boca mundana. De onde saem palavras capciosas. Pessoas distribuídas numa situação gaussiana discutindo uma questão manipulativa: "Quem pagou o chester?" X "Quem prepara o Chester?" Papéis e responsabilidades dados conscientemente conforme a melhor teoria política existente na literatura de Hobbes.

Não que isso me faça falta, mas o que me indigna é observar pessoas agarradas a conceitos tão preconceituosos e tão perdidos e assim, os elevar ao patamar sagrado da ética. Ética! Ética. Foda-se a ética! Deveríamos todos buscar a felicidade.

O peru foi servidor e a ceia está terminada. E agora? Vamos todos pra praça! Está perto nesse momento o verdadeiro conceito de felicidade, de diversão? Diversão é o mesmo que felicidade? Felicidade é o mesmo que diversão?

Sem amigos não há diversão, já dizia nosso saudoso Alessander Supertramp "A felicidade só é real quando compartilhamos", já dizia Immanuel Kant, "não existe lugar confortável no mundo que das condições a seguir possa se eximir: Bons amigos a disposição ou o conforto de uma solidão regrada a um bom uísque".

Pessoas muitas vezes lhe corroem, lhe trazem desgosto. Você pode demonstrar a qualquer pessoa o quanto sua importância é decisiva para sua existência e para o seu bem estar no mundo, e mesmo assim há dias que tudo que você deseja é nunca ter dado a esta a honra ou o prazer de sua própria companhia. Cada momento, cada trabalho, cada risada, cada ínfima virada de copo ao "Lord Nelson" do nada passa a ser poeira no vento, e a sensação de solidão que insiste em acompanhar-te durante a vida, essa vem e vai.

A verdadeira importância do natal não está na comunhão incentivada das pessoas, mas sim, em quem vai terminar a noite de natal com você falando sobre coisas do passado, sem se importar com aquele defeito, com aquela crítica, ou com a consciência pesada sobre um fato ou outro que exigirão um pedido de perdão. Uma necessidade de ser o que era, mas nunca é mais. O perdão vem da boca pra fora, as atitudes são sempre as mesmas. Então me pergunto: Por que perdoar? Por que perdoamos? Pra sofrer outra vez? Pra punir? Eu não sei a resposta...

As relações deveriam transceder tudo isso.


E quando você aparentemente começa a se sentir cansado, triste das cobranças, tristes do lugares a mesa que não podem ser exatamente ao seu lado, da vergonha de ser natural ao dizer um "eu gosto de você", um "estou com saudade suas", ou um incisivo "não faça mais isso que eu não gosto"... quando tudo isso para... é um indício de que o cansaço está chegando. E nessa hora... o coração aperta, a mente tenta raciocinar de forma lógica. Mas o objetivo que surge na sua cabeça, infelizmente e contra sua vontade sempre é e será:

"Afaste-se. Tenha amor por si próprio. Tem pessoas que realmente não valem a pena. Não importa o que você faça"

Aprenda: Existem relações que lhe dão muitas coisas boas, e você retribui também com muitas coisas boas. Contudo e para tudo, existe uma balança. Numa relação tente colocar numa balança o que tem lhe rendido manter determinado nível de relação entre você e uma pessoa. Se a balança pender pro seu lado, saia e seja humilde: A outra pessoa precisa de ajuda. Se fica equilibrado, amizade perfeita.

Agora caso a balança fique mais pesada pro lado da outra pessoa, espere.. espere um tempo. Caso a pessoa venha te procurar para equalizar os pesos, tudo bem, continue nessa, você tem alguém fiel. Agora caso ela não venha e, sistematicamente, de tempos em tempos, é você quem corre atrás... pense seriamente em desistir. E pense em desistir desta relação nunca se esquecendo:

Existe vida após o sofrimento! Não esmoreça!

Amizades verdadeiras correm atrás e sabem quando uma das partes precisa de atenção. Um amigo  verdadeiro sabe quando o outro têm necessidade de suporte. Você não precisa dizer "Preciso de você". Se seu amigo for realmente um amigo, esperer um pouco, ele logo virá dizer: "O que você precisa?"

Frank Helbert talvez tenha escrito um dos melhores pensamentos sobre essa situação transcrevendo-o  a fala de um dos seus personagens mais famosos: Mualdib. O mesmo diz em seu bestseller Duna:
"Vou deixar que o medo venha, chege perto de mim, atravesse sobre mim, invada meu corpo. Ele vai durar um tempo, mas depois ele vai embora, deixa um rastro a partir de meu corpo. Quando estiver tomando distância eu vou poder olhar pra trás e vê-lo indo embora, contudo, no fim de tudo, somente EU, SOMENTE EU, Só EU remanescerei. Logo, porque ter medo?"

Pensem nisso, quanto vale essa namorada ou namorado que diz te amar? Quanto vale esse amigo que diz gostar muito de você? Ou quanto vale esse pai ou mãe que diz que você é necessário na família?

DESPRENDAM-SE DAS AGARRAS SOCIAIS! LIBERTEM-SE DAS FALSIDADES!

A vida é curta demais para sofrer tanto por quem pouco dá valor em você! Bola pra frente e fé em si mesmo! Compartilhe com quem quer compartilhar, cuide-se e assim, seja feliz dia a dia.

Feliz natal as famílias de todas as espécies e um excelente ano de 2012 a vocês que merecem!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O natal mais antigo qual tenho lembrança

Parece que foi ontem.

Eu sentado no sofá numa varanda de pedra ardósia, frio, as luzes apagadas, a torneira aberta pingando musicalmente, barriga cheia pois havia acabado de chegar de "uma janta" na casa da minha madrinha Regina. Hoje eu sei que meu pai estava atrasado pra colocar os presentes sobre a cama, mas naquela noite, minha mãe avisava que a gente não podia ainda entrar, o papai noel estava passando.

A porta de madeira com tramela abre e eu subo correndo uma escada de cimento batido vermelho com 4 degraus, escada perigosa, milhares de pessoas caíram dela pra minha diabólica satisfação traquina de criança. O quarto retangular estreito com duas camas a minha frente, a luz está acesa agora. O lençol amarelo perfeitamente limpo e ali, abaixo da cabeceira, ao lado do travesseiro e acima de qualquer suspeita minha, postado misteriosamente por um furtivo presenteador, um fantástico ferrorama estrela.


Ferrorama Estrela, meu primeiro presente que tenho lembrança no natal!

O sorriso no rosto aparece, as mãos se esticam para apalpar uma caixa de papelão magnífica. A mesma é aberta e vem ao rosto um cheiro enebriante de isopor. Cada peça em seu lugar, cada trilho em seu lugar, cada vagão em seu lugar, meus pensamentos em outro lugar, eu era agora um maquinista.

Estrutura montada, pilhas colocadas e o botão no ON. A mágica começa. Horas a fio observando o ir e vir de uma majestosa maria fumaça equipada com 4 vagões, uma maria fumaça controlada que sobe por uma pequena rampa, mas que no fim, anda em círculos, sai de um lugar e volta para o mesmo. Uma maria fumaça que imita os dias de hoje, dias não de criança, dias de ilusão adulta com outros brinquedos menos majestosos. Contudo, maria fumaça que também me faz sentir um maquinista do destino, um maquinista sem olhar externo fiador de uma situação qual me faz pensar se também estou andando em círculos, se tenho o controle da direção ou qual a importância de cada fardo que levo em cada vagão.

Para aquele menino a noite terminou antes das nove horas pois com o final da novela a cama era o destino certo, preparação para um novo dia. Hoje, as noites não tem hora para terminar, a novela da vida não termina em horário programado e a cama que me preparava para um novo dia, essa não tem mais lugar fixo.

A cada ano um planejamento, a cada mês uma realidade a enfrentar. O papai noel ainda existe, mas não vem mais me dar presentes. É preciso correr atrás dele o tempo todo, enfrentando todos os obstáculos possíveis e aí, em um dado momento, um presente é conseguido.

O natal em Medeiros veio, foi e voltou mudado.

Feliz natal a você que luta pelo seu espaço, pelo seu destino e é o maquinista da sua própria maria fumaça.