sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Duplipensamento



O conceito de duplipensamento foi introduzido a partir da obra "1984" do escritor George Orwell com primeira edição lançada em 1949 (Li o livro recentemente). Na época obviamente era um livro futurista, hoje, idos os saudosos 1984 (inclusive ano do meu nascimento) a obra perde a característica inicial de imaginar o futuro exatamente naquele ano. Contudo, nem por esse motivo, deixa de ser atual ou deixa de passar ideias fantásticas, formas de pensar diferentes e muito menos não se insere no contexto atual como um livro obsoleto. Na minha opinião, é até o contrário, o livro do seu ponto de vista sócio-político é bastante atual na forma como trata todos os conceitos abordados.

A história é longa e bem abrangente, mas pode ser resumidíssima ao dizermos que o livro trata da narrativa feita sob a ótica de um personagem principal (Winston) que vive num regime totalitarista, controlado a mão de ferro pelo "Partido". Como praticamente todo sistema ditatorial, o regime político que ambientaliza a obra possui diversas características que evidenciam a exata forma de ser de um governo nesses moldes. Ações como a manipulação de notícias, manipulação das massas, tolerância zero com precursores da lei, dentre outros além de é claro, completo domínio da máquina pública em toda sua abrangência.

Um dos mecanismos mais e melhor utilizados pelo "Partido" em seus trabalhos é o conceito de duplipensamento que me chamou bastante a atenção. O duplipensamento segundo a obra é conceituado na página 32 da seguinte forma:

"Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar."

Parei quando terminei de ler esse parágrafo por um momento e fui a cozinha abrir a geladeira pra pensar. Fiquei intrigado com a reflexão ao mesmo tempo tão simples e tão aterradora. Imaginei por alguns instantes o efeito oportunista e até catastrófico que poderia causar se bem aplicada. Passei algumas horas refletindo até perder o sono e resolver emendar a noite pelo dia de uma quinta para sexta.

Veja bem a análise que faço do trecho do texto e como ela pode ser aplicada ao nosso dia a dia mundano, encaixotado e repetitivo.

A pergunta "O que é passado?" é copia admitida do formato de texto utilizado pelo Big Boss - Esse aí da imagem
O que é o passado?.
Muitos dirão "Oras, o passado é o que aconteceu antes."

A resposta é boa, não falta verdade nessa afirmativa, mas ela pode ser destrinchada com o intuito de ser melhor entendida, veja: Caso lembrássemos numericamente, por exemplo, de uma festa a qual fomos, registrado cada fato, cada processo ocorrido, cada interação, teríamos algo do tipo:

Entrei na festa com tais roupas (citar aqui todos as roupas vestidas, o peso de cada uma, cor, tecido e todos os demais detalhes). Andei dez passos, cada um com 1,2m até o saguão. O saguão era espaçoso, cerca de tantos metros quadrados, a iluminação era de tal tipo, a cor da casa de tal tipo e o som ao fundo tocava tal música em tantos decibéis. As 23:54 foram servidas duas garrafas de vidro X com tantos ml de bebida Y, tomei 2 doses de Y, ás 00:40 comecei a me sentir bêbado em decorrência do processamento do álcool no meu corpo... e assim por diante...

Deu pra entender né? Isso seria um relato completamente fiel do passado.Um relato não, um relatório técnico! Exato, racional e numérico. Esses seriam OS FATOS!

Contudo se você e nem ninguém se deu ao imenso trabalho de registrar todos os ocorridos racionalizando cada momento da festa, caso tenha simplesmente ido encher a cara de cachaça (o que é mais recomendável) percebemos que logicamente não existirá em local nenhum um registro desse passado, assim, o mesmo deixa de existir automaticamente, afinal o tempo passa e não poderemos nunca mais voltar lá pra conferir. Sem a documentação, sem o tal do relatório técnico, ficaria difícil pensar o que realmente foi, não existem provas. Nesse caso, o que passa a valer mais, não é mais o passado em si (os fatos), e sim a percepção que você e outras pessoas presentes no local terão acerca do que realmente aconteceu.

Imagine que sobre esta festa-exemplo eu chegue para um indivíduo chamado THX 1138 e lhe pergunte "Qual sua impressão sobre a festa de ontem?". Dada a percepção individual dele teriamos um tipo de resposta. No momento seguinte agora, recorro o outro indivíduo chamado HAL e lhe faço a mesma pergunta (!) muito provavelmente ele me dará uma resposta diferente do indivíduo THX 1138! E se eu fizer a mesma pergunta para diversas pessoas que estiveram presentes ao fato, muito provavelmente todas, cada uma delas, irá me dar uma resposta diferente do que foi a danana da festa!

Conclusão, o passado não registrado e comprovado deixa de ser um passado legítimo, duradouro e fidedigno, passando a ser assim somente um conjunto de percepções. Vejam como isso pode gerar contradição: A festa não foi boa ou ruim pelo que a festa de fato foi, a festa na verdade, foi boa ou ruim, pela forma como as pessoas a perceberam. E o pior agora: As percepções podem ser alteradas pois são formadas de opiniões próprias/individuais/pessoais e bons argumentos mudam opiniões.

Quantas vezes você saiu de uma festa que considerou em primeiro momento um lixo e na sequencia um grupo de amigos começou a lhe colocar prós e vantagens sobre o evento e no fim você mudou de ideia nem que seja parcialmente? Veja bem aqui... você participou do mesmo evento que todos, contudo foi você quem mudou de ideia quanto a como a festa foi. Entretanto a forma como a festa aconteceu não mudou e nem nunca mudará, está no passado, é um fato consumado. Em contrapartida a forma como você a vê acabou de mudar e a partir de agora, o passado para você sobre aquele evento acabou de ser alterado! Alteramos o passado! Isso é incrível!

O passado pode ser alterado, pois o passado não são um conjuntos de fatos consumados. O passado é só uma forma de encarar os eventos que já se foram um dia.

Essa simples ideia pode mudar completamente o que você deseja escolher para o seu futuro, com ela tornasse possível apagar as tormentas que nos afligem no passado e repensar as escolhas que fazemos no hoje, no presente (apesar de não ser tão fácil assim executar o procedimento).

Muitos psiquiatras e psicólogos trabalham com técnicas para manipular as memórias das pessoas e sobre estas gerar percepções diferenciadas acerca de fatos retrospectivos. A memória armazena o que ocorreu, mas a sua percepção encara essa memória de formas diferentes. Se alguém lhe convencer de que laaaaaá naquele dia em que você precisou arrancar os dentes do ciso não foi uma coisa tão ruim, a memória sobre o fato continua a mesma, contudo a sua percepção faz o fato se modificar. Já vi gente dizer que mesmo sem anestesia arrancar o dente do ciso não foi nada demais! Nem dor sentiu!

Pessoalmente, conheço inclusive algumas situações bizarras de pessoas que desenvolveram quadros patológicos onde aplicaram em si próprias o duplipensamento. Nesse caso, o duplipensamento consiste de duas etapas: Alterar uma percepção sua sobre uma dada memória e depois, de forma inconsciente, apagar da memória o ato de ter alterado a percepção sobre o fato escolhido. Na prática, ao se fazer isso, simplesmente o passado deixa de existir da forma como foi e o indivíduo passa a acreditar piamente em algo que nunca foi, literalmente numa mentira que virou verdade.

Sei de casos de pessoas que cismaram que tinham uma motocicleta (mas nunca tiveram). Inventaram essa história para si mesmas e acreditaram nisso. Um dia depois ao chegar na garagem de casa e notar a falta da moto (que nunca lá esteve) chamaram até a polícia!

Outro caso interessante é de um conhecido que tende a acreditar que faz extremo sucesso no ramo artístico internacional como ator e com isso acabou até por participar de inúmeros eventos em vários lugares da região, diz ter várias casas, posses e até que reside em diversas capitais dos grandes centros do país, mas o vejo todos os dias, como um cidadão comum e humilde trabalhando normalmente por aqui, como qualquer pessoa de boa vizinhança.

Para mim, todos esses são exemplos de casos de duplipensamento realizados de forma inconsciente.

Voltando ao livro, o bacana é que o autor mostrando alguns dos mecanismos para o controle das massas que o "Partido" utiliza retrata claramente a forma como um regime totalitarista se utiliza de técnicas avançadas para simplesmente manipular meios e massas. Isso envolve queimar livros, silenciar pessoas, alterar notícias em jornais diariamente, fazer anúncios mentirosos sobre boas novas do governo vigente. Tudo isso passa anteriormente por um delicado processo de preparação da mente da sociedade para aceitar que caso o governo diga hoje "O preço do arroz vai subir de 20 reais para 40 reais" e logo, no dia seguinte, se lance nova notícia dizendo "O governo é muito bom!  Diminuiu o preço de 50 reais para 40 reais" todo mundo já esteja com a mente preparada para simplesmente esquecer o que foi dito ontem, o que vale é o hoje! Isso associado a queima de arquivos limpa qualquer prova que venha a contestar a atual situação, a situação mais atualizada e assim, como o regime quer, as pessoas seguem acreditando em tudo que devem acreditar. Estão sedadas, estão domadas. Como animais.

O duplipensamento também pode ser usado em nosso dia a dia. Muitos já devem usá-lo para se safar das mais diversas situações. Desde o "Eu sou inocente" (clássico dos presidiários) até a criança pequena "Foi você quem derramou isso no chão? :( Não mamãe". Você pode até usá-lo em benefício próprio para esquecer problemas pessoais que valem a pena serem esquecidos como picuinhas, rancor e outros detalhes que vivem lhe incomodando.

Bom, pra finalizar, caso consigam empreender a técnica, experimentem e não se esqueçam:

Passo 1 - Apague da sua memória (ou da de outrem) um fato ou substitua um existente por outro.
Passo 2 - Apague da sua memória (ou da de outrem) o processo de apagar ou substituir o fato escolhido realizado no passo 1.

Comentem sobre o que vocês pensam dessa ideia. Funciona ou não? Existe ou não?

Abraços