segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Caminhos que se cruzam num mesmo lugar

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 19 de Outubro de 2014 em Bambuí, Minas Gerais

Um flash, um baque... zzzZZZZzzzzzZZ.... sono profundo, pouquíssimos sonhos, os poucos que se tem não trazem sentidos, o sal secou o paladar, o vapor forte de uma dose desmedida de rum assola o olfato, confunde os fatos... tic tac tic tac.. acabou a luz, acabou até a coca.

Acorda de novo sem frio, o azulejo transfere o frescor para a pele enquanto o impiedoso tempo quente, seco e invasor, acha, só acha coitado, que pode fazer algum tipo de influência em um organismo humano, ultra complexo, ultra adaptado, resultado da seleção natural por qual tem passado por anos a fio.. degustando em eventos sociais, degolando a si próprio com a arma do copo, com a dose quente e fedorenta de "pseudo-alegria" engarrafa.

Escurece a noite, nenhuma estrela faz falta quando o vento sopra leve e o calor humano preenche. A luzinha fraca das velas, amarelas, singelas e tremulantes, palpitam e balançam como se fossem pétalas de flor. O calor no peito invade, os olhos se esbugalham, os dentes rangem e sua língua fica liberada para usar o próprio cérebro: O álcool aumenta o desejo mas diminui o desempenho, já dizia o poeta. Contudo, o que o poeta não disse é que o desejo alimenta a vontade, e vontade nem todos têm ao mesmo tempo. Mais um "fora" no Score da noite... Não importa: Vamos brindar!

Rasga o violão completo, cada nota de cada corda, trinca e range sem medo, na verdade, trinca e range para implicar, para estarrecer. São notas que um dia já foram mais rebeldes, mas ainda servem, servem muito bem. Se não servissem, espantavam, entretanto, atraem, atraem, atraem. Notas como vinho, em garrafas velhas de sabor diferenciado.

É cantar até ficar sem voz, é balançar a cabeça e no olhar periférico se sentir no direito, na grandeza de operar um confortável puff estofado como o maior dos métodos de percussão da terra. É pegar o violão e de posse da palheta do destino picotada de uma tampa de margarina extrair notas mascadas de solos completos. Completos para os ouvintes, mas quiçá, muito destoantes para os transeuntes da madrugada. "A noite todos os gatos são pardos, os meninos sempre satisfeitos, mas as meninas querem mais".

Abrem-se as bocas a cantar, a energia entra no peito, empurra o diafragma e tira da alma o tom perfeito, o tom de TODO MUNDO CANTA JUNTO. Esse tom ninguém erra, ninguém desafina. O tom ora pop e objetivo, o tom ora sertanejo e que faz arrepiar, o tom rock and roll que liberta o pouquíssimo dos rebeldes que um dia foram, mas o principal, o tom que une, a melodia que possui peso, o tempo perdido tocado entre amigos que por ironia tanto tempo já perderam mas só agora se reencontram: Tão natural como a luz do dia, ninguém percebe? Estamos tirando o atraso de anos. Correremos risco de vida por isso?

O ar ainda é fresco e o relógio não se deixa usar como desculpa para fuga, mas a quem não contaminou a farra infinita, começam a pesar as vontades do organismo e não do cérebro alterado. Um vai, outro vai, um diz que vai em 10 minutos, um só vai terminar mais uma cerveja. Os poucos que ficam se sentem relativamente especiais, podem ter conversas francas de bêbados. Ao contrário do que dizem especialistas, nem todas as conversas francas de bêbados são para se arrepender depois, no meu caso, 80% dessas conversas vieram para bem (não que isso vá garantir a diminuição do arrependimento no outro dia, mas pode ajudar)

A noite termina no escuro, o ápice da escuridão nas ruas de Medeiros leva cada um ao seu travesseiro com os pensamentos tristonhos de sempre, as preocupações sobre que bobeiras ditas, que ofensas feitas, o dinheiro gasto em demasia. [Nada que não passe até na próxima quarta-feira]

Se têm uma coisa em mim na qual me esforço para ser melhor é procurar extirpar-me de todo o sentimento de rancor. Tudo é mais fácil quando entendemos os porquês, tudo pode ser analisado de forma racional. Mas em contra ponto, só o vale para onde o vínculo emocional trará retorno.

Nem uma noite é para se arrepender, afinal estamos, SEMPRE, todos bêbados, bêbados de cair, e todos que não estiverem bêbados, pela falta de sintonia, sendo de um jeito ou de outro sempre serão expulsos dali.

Essa é uma história que fala da importância em evoluir sua alma, sua consciência, abandonando realmente um dos piores sentimentos, o sentimento de rancor. Custei a aprender, mas depois que aprendi me tornei tão rápido quanto desligar um interruptor, a ser uma pessoa melhor, uma pessoa que tem a dignidade de pedir desculpas e aceitar de braços abertos pedidos de desculpas. Um copo às vezes ajuda.

Maturidade é olhar de cima, é perceber todo o arranjo, todo o contexto. É saber que você poderá ser ferido a qualquer momento, mas, isso também pode ter sido feito de forma não proposital.

Por fim aos que guardam rancor abram apenas um sorriso, já resolve muito!

A você do rancor, desejo uma bela bacia de alface fresca e inteira do lado do seu prato na hora da janta, desejo que o papel higiênico não termine bem na hora H, desejo que os bancos nunca te liguem, desejo que você saiba o que é uma decisão por pênaltis em final de Libertadores da América com seu clube sendo sagrado campeão, desejo que alguém na sua casa separe o creme de barbear da pasta de dente, desejo que você ganhe pelo menos um bingo na vida, desejo que você seja o único na banda que saiba fazer aquele detalhe no instrumento, desejo que você volte sempre que puder e que o "desejo de voltar" seja o que te move, desejo que você resolva suas coisas tão bem guardadas e que depois disso, elas te levem a lua (se esse for o destino), desejo a você um dia frio e um cobertor quente no sofá de casa vendo temporadas intermináveis, desejo que você tenha alguém pra amar quando estiver bem cansado, desejo que você tenha abertura para ouvir e, se achar que vale a pena, que você tenha discernimento para propagar suas opiniões da melhor forma, adaptado a cada contexto.

Desejo a você amigos de verdade, amigos compreensivos, amigos DISPONÍVEIS, amigos que bebem cerveja e que cantam as mesmas músicas que você. Amigos que te cortem, que te apontem INÚMEROS defeitos, que abalem sua estrutura psicológica apontando-lhe cada uma das suas burradas e cagadas. Desejo amigos que, mesmo com tantos cacos despedaçados largados no chão ao longo de sua trajetória, venham com a liga que sempre falta para juntar-lhes, para reconstruir.  Amigos que estarão do seu lado para ajudar a corrigir tudo isso. Não vivemos em estruturas sociais inabaláveis, por isso, mais do que compartilhar, precisamos antes aprender o caminho da felicidade, e se:

"A felicidade só é verdadeira quando compartilhada."

Desejo acima de tudo, A VOCÊ, que entenda que vale SIM a pena compartilhar e, quando não for possível, que você sofra ao nos mostrar o quanto essa máxima dita pelo saudoso Christopher McCandless seja, talvez, o ponto fraco da nossa geração ansiosa por fuga, que se liberta nas garrafas piratas. Mas mostre também que essa mesma geração já tem a felicidade escondida dentro de si mesma e a maturidade para saber que para ser feliz, basta estar junto!

Para se obter resultados diferentes precisamos usar parâmetros diferentes. Agir sempre igual nos leva sempre ao mesmo destino. Afinal:

“Quem planta banana, só colhe banana”

Convido a todos a pararmos de errar de propósito!