terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Vampiros e hábitos

Ciniro Nametala - Escrito na madrugada de 22 de Dezembro de 2015 em Medeiros, Minas Gerais.

Como está sua vida hoje? Já parou pra pensar nisso?

Quando digo "hoje" não estou falando do seu humor nesta semana, me refiro ao seu estado emocional atual levando em conta tudo que você tem passado nos últimos tempos. Como está sua vida (segundo você mesmo) quando você encara a sua situação como resultado das ações e decisões que você teve nos últimos quatro ou cinco anos?

Uma das coisas que tenho percebido nos meus últimos anos é que meus sonhos têm se realizado. Não só os meus mas também os sonhos de muitas pessoas com idades próximas a da minha, pessoas que me rodeiam. Todo mundo têm conversado muito sobre o que quer fazer no futuro, planos, tem conversado sobre possibilidades, investimentos, vêem estrada no horizonte. Na verdade, não só isso, tenho percebido um processo muito mais interessante: As pessoas que tem conversado sobre sonhos realizados são as mesmas pessoas que nos últimos tempos tiveram pequenas conquistas, sonhozinhos menores aparentemente sem importância mas que fizeram modificações incríveis.

No início desse ano quando passei pela primeira vez pela porta da frente da UFMG na avenida Catalão, confesso que me perguntei sobre que tipo de desafio me esperava. Da entrada até a sala de aula são 20 minutos a pé, como nunca tive carro, fui refletindo. Fiz isso três vezes por semana, todas as semanas no último ano. Mas naquele dia em específico, até então, apesar de já ter passado por muita coisa e ter tido inúmeras pequenas vitórias, eu por algum motivo não me achava no direito de bater de frente com o desafio. O meu âmago que teima em ser burramente religioso questionava a Santa Luzia se a mim havia sido dado uma tarefa qual não poderia cumprir. "Você é tecnólogo" falaram com os olhos, algumas vezes com palavras. "Você não teve cálculo 3", "Você não estudou em uma universidade de ponta", "Você não se encaixa", "Mas você não fez isso", "não fez aquilo", "te desejo SORTE"... muitas vezes eu mesmo me falei todas essas coisas sem ninguém me falar nada. Infelizmente a gente acaba acreditando. A gente duvida. Mas é tudo mentira se você decidir que será.

Incluindo a mim mesmo na conta, cansei de contar dezenas de almas que se habituaram a duvidar. Gente boa amarrada em corrente de plástico. Gente adestrada a parar de crescer, gente que foi convencida de que não dá, não pode, não rola. Vi conscientemente almas que eram capazes de tudo, mas por viverem ao redor de gente que toliam seus sonhos, simplesmente não conseguiam nada. Algumas não conseguem até hoje, aprenderam a duvidar e agora precisam ser convencidas do contrário, a ordem comum foi invertida. O ciclo vicioso é tão forte que a pessoa cria suas próprias justificativas para não se mexer mais. Já infere que não dá, sem nem testar. Vira uma mãe Dinah do azar prevendo seu próprio futuro estático. E por já "saber" o que vai acontecer no futuro, no presente nada faz, logicamente ela acaba acertando, afinal não levantou a bunda da cadeira em momento nenhum pra mudar nada.

Como professor uma das coisas mais bonitas que você pode fazer é alimentar sonhos. Muitos não pensam assim e, pra mim, minar a crença de um sonho que pode ser realmente alcançado é uma das maiores covardias que se pode fazer a alguém, especialmente se você for bom nisso. Primeiro que a pessoa prejudicada nunca vai entender o que aconteceu (afinal seu sonho nunca será realizado) e, depois, como não percebe o vampiro do lado, continua a andar com ele, vai dando seu sangue de forma homeopática por anos a fio. Identificar vampiros é tarefa difícil mas fundamental pra conseguir as coisas. Vampiros são pessoas pequenas, gente que para se manter grande (do seu próprio ponto de vista) usa como tática fazer esforço para impedir que outros cresçam. E sabe qual motivo leva vampiros a se empenharem nisso ao invés de investir no crescimento próprio? Se empenham nisso pois minar sonhos não exige inteligência, assim acabam cumprindo seu papel.

Para não ser atacado de forma crônica é preciso entender que, antes de tudo, você precisa mudar algo e para isso precisa se mexer pra começar a mudar tudo. Mudanças que vem de coisas pequenas, pequenos hábitos que te levam a pequenas vitórias, que te fazem acreditar que vitórias maiores são possíveis e, depois disso, os sonhos realizam-se. Mas primeiro é preciso fazer alguma coisa, mesmo que minúscula. É simples, veja bem, se você não gosta de algo.. mude então! Se você não gosta do seu trabalho... saia do seu trabalho! Está faltando tempo? Saia do facebook, saia do Whatsapp, pare de ver TV, acorde mais cedo! Você está procurando o amor da sua vida e não encontra? Pare de procurar e vá fazer as coisas que você gosta, provavelmente é  nessa hora que você irá encontrar! Quando for comer, aprecie até a última mordida! Decida mudar qualquer coisa!

A vida, por mais que não pareça, pode ser simples. Ande de bicicleta, jogue bola com os seus filhos, acorde cedo e tome um banho gelado. Comece a abraçar. Abra sua mente, braços e coração pra coisas novas! As pessoas estão unidas antes de tudo nas diferenças, quem sabe uma coisa sua completa o que falta em outro lugar? Viaje com frequência, se coloque em situações em que você não sabe agir direito, entenda que se perder muitas das vezes é o que nos ajuda a se encontrar. Isso é importante pois certas oportunidades só vem uma vez e isso não é clichê de mensagens que sua mãe compartilha no facebook. A vida não é sobre as coisas que você cria para atrair as pessoas e sim, o contrário, é sobre as pessoas que você encontra e as coisas que você cria com elas. Se você não interagir, nada será criado! Então interaja e comece a criar agora!

É um alívio perceber algo tão simples da vida, acho que neste ano ver isso tão claramente foi minha maior conquista individual. É muito bom descobrir que você pode fazer quase tudo que desejar se você resolver passar por cima dos vampiros e maus hábitos que te cercam. As vezes uma caminhada de 20 minutos, três vezes por semana, em meio a um turbilhão de exigências acadêmicas já serve. Pra finalizar queria dizer que sobre o tempo que perdemos fazendo nada pra mudar, muito explica a frase do Antoine de Saint-Exupéry: "O que se leva dessa vida é a vida que se leva e nada mais". Você escolhe a vida que irá levar. Decida agora, no minuto que acabar de ler esse post, que 2016 será o MELHOR ANO DA SUA VIDA! Levante a bunda da cadeira, vá lá e faça isso ser verdade! Mostrar pra todo mundo que dá só depende único e exclusivamente de você. Não acredite no que dizem os vampiros! Pare de pensar em justificativas! Comece pequeno e vá andando um passo de cada vez, uma hora a recompensa chega.



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Parte das palavras dos parágrafos anteriores eu vi em um vídeo [1]. Misturei com a imagem que ilustra esse post. Fiz isso pois acho que elas tem tudo haver depois de um ano de muito trabalho e grandes sonhos que começam a se realizar.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=sOV0X_eWlyg

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O pretérito imperfeito e a Máquina de Lavar

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 26 de Junho de 2015 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Era uma vez um homem que sairia para andar de bicicleta. Juntou todo o lixo que estava na área de serviço há dias, sentiu o cheiro de cada saco preto e com nojo, os amarrou a contra gosto. Era uma terça-feira a tarde, ali pelas cinco, o dia não prometia mais nada nesse horário, nem expectativa, nada.

Ele se levantou não mais sentindo cheiro de lixo, notou a janelinha sempre aberta por onde entrava uma brisa mansa e fresca. Sentiu prazer naquilo. O fez lembrar que o clima ali era bom, bem melhor que o inferno escaldante por onde havia passado não fazia mais que seis meses. O saco de lixo era leve, mas havia um pouco de água choca no fundo, ruim de carregar.



A máquina de lavar ficava ao lado, ela estava com a tampa aberta, ele recolocou os sacos no chão e fechou a tampa. A máquina tinha nove programas de lavagem e aguentava um edredom se precisasse. Sua mãe havia mandado comprar aquela justamente por isso. Foi um pouco caro. Ele sentiu orgulho de ter uma máquina de lavar com qualidade tão esmera. Um sentimento que nutria também de forma muito semelhante pelo seu filtro de barro São João. Dava pra ver o filtro daquele lugar, lindo, marrom, suculento. Um respeitável filtro de 45 reais.

Ele pegou novamente os sacos de lixo e por alguns segundos se pôs a caminhar quando ouviu um assobio, era a máquina de lavar chamando ele. A tampa subindo e descendo enquanto os botões programáveis giravam. O motor roncava levemente quando palavras saiam. A máquina queria alguma coisa. Ele recolocou os sacos no chão. Voltou até a área de serviço, olhou para a máquina e perguntou o que ela queria com ele. A máquina respondeu que estava cansada de tanta cueca. 

Caiu um silêncio, um clima desconfortável cobriu como manta o momento ali vivido por dono e seu objeto. Ele por muito pouco não sentiu pena da máquina, até que citou pra ela o caso da lava louças que nunca reclamava de nada e trabalhava muito mais. A máquina ficou furiosa, para ela a lava louças era como uma irmã mais nova chata que só lavava pia. A lava louça não tinha sequer feito aniversário de um ano naquela casa e já estava se achando a rainha da cozinha. O sonho da máquina de lavar era ver a lava louças torcendo uma dezena e meia de calças jeans encardidas, não mais ou menos encardidas, encardidas de acordo. Mas impotente, coisa dessas ela já sabia triste que, nunca deveras, aconteceria.

A máquina entretanto queria uma posição. Roncou mais alto pedindo então pra lavar só pano de prato. Argumentou que o conjunto do todo que compõe uma cozinha não suja tanto. Dialogou em palavras complexas, gastou seu vasto vocabulário, exprimiu sua opinião fazendo valer a dignidade conquistada depois de anos de trabalho. A máquina só não fez cara de coitada pois isso ela não admitia, era um pouco orgulhosa e, somente por isso, manteve a postura na conversa. (Na verdade isso era uma coisa de marca que ela achava ser a melhor do mercado, mas não cabe aqui essa parte)

O homem não queria mais ouvir a ladainha e ensaiou colocar a máquina no seu devido lugar de linha branca, coitada com IPI reduzido, comum posse da classe média. Entretanto ele percebeu que lá no fundo a máquina só queria mesmo era um pouco de apreço. Pouco toda aquela conversa tinha haver com suas cuecas. Ficou com dó. Refletiu então e decidiu ceder um pouco na discussão. Decisão que também foi motivada pelo fato de que praticamente tudo envolta no lugar já estava prestando atenção. Até o filtro.

Ele abaixou a cabeça um pouco de lado, fez cara de sério mas com certa condescendência. A máquina já tinha percebido nessa hora que havia ganhado aquela briga. O homem foi lá, pegou o cesto de roupas, jogou tudo dentro de um balde com água sem sabão, esfregou ali uns minutos como estava mesmo. Tirou tudo, saiu andando sem olhar na cara da máquina, passou pela lava louças que amedrontada piou um fino bip, foi até a sacada na varanda onde pendurou tudo. Voltou pra cozinha, pegou os sacos de lixo, desceu pelo elevador, jogou tudo fora, pegou sua bicicleta e passeou por uma hora e 20 minutos sem suar a camisa, estava frio. 

Já era sete horas quando voltou.

Na garagem ele trancou a magrela quando ouviu gritos estranhos, adentrou correndo em seu cortiço! Isso não era coisa normal, tinham dito pra ele que ninguém ali era escandaloso. Um lugar cheio de pessoas boas, respeitáveis, educadas, cumpridoras do seu esperado papel cristão na sociedade. Ademais disso, quando ele olhou pra cima, viu a máquina na varanda urrando igual uma cabrita. Ela se debatia em prantos e rolava de um lado pro outro. Sem esperar, lá de baixo mesmo, o dono gritou perguntando pra ela o que estava acontecendo. Qual motivo levaria a tamanho escândalo e piti em público. A máquina então disse que a polícia viera nesse ínterim da bicicleta, derrubara a porta e, sem dar maiores explicações, levara todas as cuecas embora. 

Após subir as escadas, entrar no apartamento e ir até a varanda o homem parou. A cena era lastimável. O varal acabado, triste, solitário. Só os aros de ferro tremendo que nem Cruzeiro em jogo com o Galo. A máquina ali no canto desesperada gritando. As três banquetas que ficavam ali para os fumantes, que em geral mal tinham contato com as cuecas, também não se aguentavam de chorar. Um momento realmente triste. 

Não tinha muito o que fazer. Ele consolou a máquina, o varal e as banquetas. Voltou a cozinha e explicou pra todo mundo o que estava pegando. Mas no fundo ele achou um pouco bom. Todos entenderam que enquanto reclamava a máquina não sabia da importância de lavar cueca, ela não entendia que o propósito da sua vida era um pouco disso também. Chiava, fazia cara feia e torcia os botões, mas nunca tinha parado pra pensar na importância do seu papel naquela casa lavando cueca. Só entendeu quando tiraram dela uma coisa que no fundo ela gostava muito de lavar todo dia.

O dono então, e para acabar com a história, queria pelo menos tirar satisfação com alguém, nem que fosse pra vingar a máquina. Foi procurar a polícia. Depois de conversar bastante descobriu que era a lei. Fazer o quê. Regras do cortiço.

O estrago estava feito, o máximo que pode fazer depois disso foi passar o varal pra dentro.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Espaços n-dimensionais e suas "formas"

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 19 de Maio de 2015 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Imagine que você tenha um problema que precise resolver. Peço que, de preferência, não imagine um problema do tipo "como contar para minha mãe que estou grávida" ou "como me livrar das drogas". Imagine alguma coisa mais prática e simples, como por exemplo, "Se eu não sofresse qualquer interrupção quanto tempo eu levaria para assistir um filme com duas horas de duração?". A resposta é meio óbvia e por isso, espero que você tenha acertado: 2 horas!! (Caso não tenha acertado pare por aqui e volte para o seu livro de ciências humanas - brincadeira, pode continuar lendo). Bom, agora vamos representar esse problema graficamente como um ponto. Esse mostrado a seguir:

Figura 1: Representação de uma solução ótima
Perceba que o ponto é a solução pois corresponde ao único valor possível a ser escolhido como resposta para a pergunta feita. 

Agora imaginemos um segundo problema, um pouco mais complicado, algo do tipo "Estou com medo de ET e por isso estou pensando seriamente em dormir de luz acesa. Como deixo a lâmpada esta noite? Acesa ou apagada?". Bem, neste segundo problema, ultra-extremamente mais complexo, só existe uma solução: A luz acesa. Contudo, diferente do primeiro problema, existem agora duas opções a se escolher. Logo, podemos pensar já no que é chamado "Espaço de Soluções". Neste caso temos um espaço de soluções com duas opções de solução: Acesa ou Apagada. Contudo apenas uma delas é considerada a solução correta, chegamos então também ao conceito de "Solução Ótima".

Você já deve ter entendido a brincadeira. O "Espaço de Soluções" são todas as respostas possíveis para um problema, contudo, dentre todas as possíveis só uma (ou às vezes mais de uma) pode ser considerada a melhor, esta seria a "Solução Ótima". Só para não perder o costume vamos também representar graficamente o que acabamos de conversar sobre medo de ET´s:
Figura 2: Representação de espaço de soluções
Agora um terceiro problema, imagine que você é um estudante que mal tem dinheiro para cortar o cabelo e por isso paga de descolado com o cabelo grande quando na verdade é apenas pobre. O banco lhe convenceu a abrir uma conta universitária para sua mãe depositar dinheiro todo mês. E mais, você têm direito a cheque especial! Logicamente, você prioritariamente bebe o dinheiro da sua mãe durante o mês e usa o cheque especial em coisas supérfluas cortar o cabelo. Sua conta então é um problema! Qualquer valor menor que zero o leva para o cheque especial e, qualquer valor maior que zero, o deixa no azul. Neste caso, podemos dizer que a solução ótima seria estar no azul, independente do valor, ao passo que, estar no cheque especial é uma alternativa possível, contudo não podemos dizer que seria uma boa solução, independentemente também do quanto você já se afundou lá. Veja a representação gráfica que sua mãe deveria ter acesso:

Figura 3: Representação de um espaço com soluções contínuas
Pode-se ver agora que no espaço de soluções não existe mais uma opção única, algo do tipo: "Estar no azul é 5 reais" ou "Estar no cheque especial é -20 reais". Na verdade para este tipo de problema o espaço de soluções é composto de um intervalo, ou seja, qualquer valor menor ou igual a zero (cheque especial) e qualquer valor maior que zero (azul). Para problemas deste tipo dizemos que o mesmo possui "soluções contínuas" ao passo que os anteriores são ditos de "soluções discretas". Logicamente, para o problema da conta, a solução ótima corresponde a qualquer valor no intervalo maior que zero que lhe deixa no azul.

Vamos imaginar agora um problema discreto com um espaço de soluções maior, mas que só tenha uma solução ótima: "Qual o melhor clube de futebol brasileiro?". Apesar da resposta ser fácil, o espaço de soluções aqui é relativamente grande, afinal, antes de mais nada para apontar o melhor clube do futebol brasileiro, ou seja, a solução ótima, precisaríamos conhecer antes todas as soluções existentes no espaço determinando quais são todos os clubes de futebol brasileiros. Sabemos que são muitos os clubes. Entretanto, para fins didáticos, separe apenas os de Minas Gerais e São Paulo da série A, para cada um deles, atribua um número que funcionará como um código (só para não ter que escrever o nome inteiro do clube). Vamos ver isso graficamente:
Figura 4: Representação de um espaço com soluções discretas
Nosso espaço de soluções agora possui 6 alternativas, só uma é a ótima: O Galão da massa! Você poderia até escolher outra solução, mas quando a solução que encontramos não é a ótima, chamamos isto ainda de solução, contudo, não apenas "solução" mas "Solução ruim".

Espaços de soluções podem conter inúmeras soluções ruins que permitem ser escolhidas, contudo o desafio é encontrar a melhor, a solução ótima. Neste sentido, pense na resposta para o seguinte problema: "Quantas peças de louça se encontram agora em minha pia esperando para serem lavadas?". Certamente que são muitas. Mas não pense no número em si, pense no espaço de soluções. Qual o tamanho deste espaço de soluções? Bom, podemos dizer que ele variará entre o mínimo, que seria de zero peças na pia, até o máximo de peças que você possui em casa. Vamos tomar este valor máximo aqui como 100, mas tanto eu quanto você sabemos que o normal é quatro (uma colher, uma faca, um prato e um copo). Bom, então são 100 soluções possíveis para o problema, de zero a cem peças na pia. Se a quantidade correta for, por exemplo, de 30, então 30 é a solução ótima. Assim, você responderia exatamente o valor correto de peças na pia esperando para serem lavadas. Mas pense no seguinte, se você chutasse 28, 29 ou 31, 32 peças? Estaria errado? São valores muito próximos do correto! Nestes casos, dizemos que apesar de não serem a solução ótima, essas soluções são quase isso. Ou seja, as soluções que são muito próximas de ótimas, ou quase ótimas também são boas e a estas damos o nome de "vizinhança do ponto ótimo".

Muitos problemas podem admitir que você encontre uma solução vizinha à ótima e assim, mesmo não obtendo a solução ótima, se dar por satisfeito, como no caso da pia onde existem soluções aceitáveis, mas diferente no caso do time de futebol que só tem uma solução aceitável que é o Galo! Veja o gráfico:
Figura 5: Representação da vizinhança à solução ótima
OK. Você agora já domina diversos conceitos fundamentais para continuar o texto. Vamos mudar a linha de raciocínio para outra direção. Veja que todos os problemas que citei anteriormente somente abordam uma variável na composição da solução do problema. Como assim? Veja:
  • A duração do filme pode assumir UM valor apenas. Ex: [2 horas].
  • A condição da lâmpada pode assumir UM estado apenas. Ex: [apagada]
  • A sua conta pode assumir UM status apenas. Ex: [azul] mesma coisa que [maior que zero]
  • O clube de futebol pode ser apenas UM. Ex: [Galo]
  • A pia da sua casa só pode ter UMA quantidade de peças. Ex: [30]
Veja que a solução escolhida (independente de ser ruim, mais ou menos, quase ótima ou ótima) é composta de apenas UM valor, ou seja, apenas uma variável existe no conjunto que compõe a solução! Dizemos nestes casos que a solução para o problema possui apenas 1 dimensão! Entretanto é muito comum que diversos problemas assumam situações onde a resposta é composta de mais de uma dimensão, como é o caso do problema seguinte.

Assuma que você quer comprar um chuveiro para tomar banho, pois você descobriu que isso faz bem para a saúde. Você resolve que quer comprar um chuveiro que custe menos de 40 reais e que pese menos que 45 quilos. É um problema com soluções contínuas, mas para incrementar digamos que a solução ótima seria um chuveiro que tenha exatamente 20 quilos e seja distribuído gratuitamente pela prefeitura, ou seja, custe zero. Se você observar o gráfico abaixo vai ver que o espaço de soluções é todo e qualquer preço e peso existentes, as soluções vizinhas ao ponto ótimo compõe o espaço onde qualquer um dos pontos na área colorida poderiam ser tomados como aceitáveis, a solução ótima é o ponto marcado em azul e todo o restante do espaço é composto de soluções ruins, não aceitáveis, pois quebram a sua restrição de custo (menos que 40 reais) e peso (menos que 45 quilos). Veja que agora a solução do seu problema é composta de dois valores: custo e peso. Uma solução aceitável para o problema, por exemplo, seria [30,40]. Ruim seria, por exemplo, [50,55]. A solução ótima, como já dito é [0,20]. É um problema de 2 dimensões e que pode ser representado graficamente em um espaço plano:
Figura 6: Espaço de soluções de 2 dimensões
Estamos quase concluindo. Pense agora em problemas que trabalhem com 3 dimensões em suas soluções. Conseguiu imaginar algum? Segue mais um exemplo. Você poderia querer determinar em qual ponto sua panela de pressão cozinha mais rápido aquele saco de batatas que está lá na geladeira desde o último reveillon. Você então faz inúmeros testes com inúmeras panelas e percebe que, depois de voltar ao cheque especial e ser o primeiro colecionador de panelas de pressão do universo, o melhor ponto é encontrado quando a pressão da panela é 50 Pa, sua temperatura é 100ºC e a panela têm volume de 80 cm³. Ou seja, a solução encontrada é [50, 100, 80]. São 3 dimensões do espaço. Vamos também colocar isso representado graficamente:
Figura 7: Espaço de soluções de 3 dimensões
Perceba a solução ótima no espaço de soluções em azul. Ao redor da solução ótima obviamente existem inúmeros outros pontos que poderiam ser marcados. Todos eles vizinhos a solução ótima. Para este problema, poderiam por exemplo ser considerados aceitáveis, como os pontos em verde. Soluções muito afastadas da ótima seriam soluções ruins como o ponto vermelho.

Bom, dado que praticamente todos os problemas deste universo podem ser numericamente representados (Muitos discordam do que acabei de escrever. Mas estes já pararam de ler o texto lá no primeiro parágrafo quando não entenderam o "2 horas") podemos observar que as soluções são tratadas em dimensões. Falamos até aqui de 3 dimensões. Dimensões que podem ser representadas no espaço como o conhecemos. 

Mas para problemas que possuem mais que 3 dimensões? Como eles seriam representados?

Você já deve ter reparado que se seguirmos a sequencia lógica é completamente aceitável que existam problemas em que as soluções não sejam compostas de apenas 3 variáveis, mas de quantas forem necessárias. Soluções para problemas podem ser compostas de 4 dimensões, 5, 6, 100, um milhão. Quantas variáveis quaisquer estiverem envolvidas no problema. Mas a pergunta continua: E se eu quisesse representar minha solução no espaço? Como eu faria?

Antes precisamos averiguar como é composto o espaço de 3 dimensões como o conhecemos.

É seguro afirmar que o posicionamento de um ponto num espaço de soluções é variado movimentando-se este de um lado para o outro em uma reta, seja para direita ou para esquerda (chamaremos isso de eixo X). Assim representaríamos a solução no espaço de 1 dimensão (como na figura abaixo (a)). Se incluirmos mais um ponto a ser marcado no espaço, então precisaríamos adicionar uma nova reta de forma perpendicular a já existente, inserimos assim então um novo espaço que também variará para esquerda ou para direita(chamaremos isso de eixo Y). Representamos assim um espaço de 2 dimensões (como na figura abaixo (b)). A regra até aqui é a de que, cada nova dimensão precisa ser incluída de forma perpendicular as já existentes. Se formos colocar mais uma, sobra apenas a variação de cima para baixo, então adicionamos a última reta possível no espaço criando uma terceira dimensão (chamaremos isso de eixo Z)(como na figura abaixo (c)). E agora? Se resolvermos incluir uma quarta? Sabemos que ela precisa variar de um lado para o outro e tem que estar perpendicular as já existentes. Essa é a regra. Mas como fazer isso?

Figura 8: Construção de um espaço de 3 dimensões no espaço como o conhecemos
Se essa é a regra logo percebemos que, no espaço como o conhecemos, não é possível adicionar uma nova reta, ou seja, não podemos representar graficamente uma quarta dimensão no espaço se a reta precisar ser colocada perpendicularmente as outras. Muitas pessoas dizem que representar até dá, mas aí você não utilizaria o espaço em si (uma reta). Para isso você poderia por exemplo determinar que a cor do ponto no espaço seria correspondente a um valor, ou que a forma como esse ponto é representado no espaço seria corresponde a outro valor, assim seria possível representar até 5 dimensões, como figura abaixo. Fazer isso pode ser interessante para mostrar um cérebro e suas áreas, entretanto a forma e a cor do ponto não são interessantes pois visualmente são limitadas. Não é como uma régua que você bate o olho e sabe o resultado. Ademais disso, imagine então um espaço de 6 dimensões ou maior que isso, com n dimensões (n aqui quer dizer quantas dimensões você quiser). Você não poderia usar mais nada pois já gastou eixo X, eixo Y, eixo Z, cor e forma.

Figura 9: Extrapolação das dimensões espaciais para representação de dados
Os estudos mais avançados nessa área são quase sempre feitos por estatísticos, afinal, geralmente são eles que trabalham com dados mais do que ninguém. Muitos trabalhos científicos foram desenvolvidos no sentido de repensar esse problema. Diversas alternativas utilizando junções de gráficos diversos [1] e simplificação de gráficos existentes [2] são comumente observados em trabalhos por aí. Existe inclusive um trabalho muito interessante desenvolvido pelo pesquisador Herman Chernof que propõe a utilização de esquemas que simulam a face humana [3] para representar graficamente espaços e soluções n-dimensionais.

Muitas pessoas dizem que tudo que criamos advém do que já vimos em algum momento durante nossas vidas. Traduzindo, tudo que pensamos na verdade é apenas uma derivação de elementos mais simples que empregamos em conjunto para imaginar formas, cores, sentimentos, gestos e assim, tomar decisões. Se nunca vimos um espaço maior que o tridimensional então estamos sujeitos a nunca, em nenhum momento da história da humanidade, visualizar um espaço com mais dimensões que isso, apesar de, como você bem ter visto, existirem sim essas outras dimensões. Elas só não podem ser visualizadas pois somos seres que percebem apenas, fisicamente falando, 3 dimensões no espaço.
Figura 10: A lógica da visualização da quarta dimensão. Fonte: [8]
Essa verdade sobre dimensões (algo bem diferente do que você pensava ser quando assistia ao Cavaleiro de Gêmeos aplicar seu golpe fatal no Ikki de Fênix) trás a tona algumas reflexões interessantes. Uma delas é que, se você imaginar, por exemplo, que um cubo (3D) quando posto sob a luz projeta uma sombra em formato de quadrado (2D) e que, também, se você colocar um quadrado de pé sob a luz ele também projetará uma pequena parte de si como sombra, neste caso uma linha (forma 1D), logo seria razoável pensarmos que uma forma de 4 dimensões projetaria como sombra uma volume 3D, como um cubo por exemplo. Outro ponto interessante é que, se somos seres que percebem apenas 3 dimensões e, por ventura, assumirmos aqui que existem seres que conseguiriam quem sabe ver em 4 dimensões, é relevante consentir que da mesma forma que observamos formas 1D ou 2D achatadas (como as sombras), eles também nos veriam assim, achatados. Afinal estamos uma dimensão abaixo do que eles conseguiriam visualizar. O raciocínio é o mesmo ao entender que você só é gordo, pois conhece um eixo de profundidade como o Z. Nos eixos X ou Y somente, o conceito de gordo ou não existe, ou de algum modo não podemos percebê-lo. Veja que até aqui só fui até 4 dimensões. Imagine n! 
Figura 11: Sombras projetadas por figuras uni, bi e tridimensionais. Fonte: [8]
Esse jogo de pensar, como feito no caso das sombras de cada dimensão, deu origem ao conceito de Hipercubo. O Hipercubo é uma forma não imaginável fisicamente por nós. Teoricamente no hipercubo, ao realizar-se numa de suas dimensões um corte transversal, seriam obtidas formas volumétricas uniformes de 3 dimensões. Algo similar ao fato de que ao cortar um cubo o mais fino possível transversalmente, você obtêm um quadrado (pense em você cortando um pedaço de bolo bem fino). O mesmo que ocorre ao cortar transversalmente e o mais fino possível um quadrado, você obtém uma linha (pense em você cortando uma massa de macarrão esticada na mesa o mais fino possível). O Hipercubo aborda o conceito de conexões e existem vários vídeos na internet [4] que propõe formas parcialmente "visualizáveis" para ele. Recentemente uma abordagem n-dimensional de hipercubo foi explorada no filme Interestelar quando o ator principal (que esqueci o nome agora) fica preso dentro de um buraco negro. A maior viagem!!!

Concluindo, existem inúmeros experimentos e teorias que só funcionam e obtém comprovação científica pois, matematicamente, é completamente possível e viável trabalhar-se com espaços n-dimensionais. Quando pensamos em mais de 3 dimensões, diversas propriedades novas aparecem. Essas novas propriedades podem ser aplicadas para resolver problemas muito complexos, coisas complicadas ao ponto de que, em 3 dimensões o "espaço" é pouco. O mais bacana disso tudo é poder te dizer que, você não deveria se surpreender se ficar sabendo por aí, que a grande maioria dos problemas realmente interessantes e práticos envolvem muito mais que 3 dimensões. Isso é especialmente verdade quando pensamos em identificação de padrões, classificação de grupos de dados imensos, otimização, astrofísica, diagnóstico de doenças e muito mais. Matemáticos já exploram essas propriedades desde séculos atrás, basta citar Euclides e sua distância euclidiana n-dimensional, mas existem diversas outras. É tão antigo e só agora você ficou sabendo!

Para fechar, vou terminar o texto com uma frase que vi num blog perdido na internet [8], em um artigo que como este, teve por objetivo tentar encontrar a "Solução ótima" do didatismo e facilidade de entendimento de um assunto aparentemente tão complicado.

"Acredite, o seu corpo físico está confinado em um espaço de somente três dimensões, mas a sua mente, de natureza imaterial, esta não precisa ficar encarcerada nele."

Até o próximo post!

[1]http://www.cs.uml.edu/~mtrutsch/research/High-Dimensional_Visualizations-KDD2001-color.pdf
[2]http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/19398/000300210.pdf
[3]http://lya.fciencias.unam.mx/rfuentes/faces-chernoff.pdf
[4]https://www.youtube.com/watch?v=9DoSqeJNG74
[5]http://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides
[6]http://pt.wikipedia.org/wiki/Dist%C3%A2ncia_euclidiana
[7]http://pt.wikipedia.org/wiki/Dist%C3%A2ncia_de_Mahalanobis
[8]http://www.silvestre.eng.br/astronomia/artigos/bigbang/02/

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 11 de março de 2015

A importância do ceticismo

Baixa escolaridade e muita religiosidade pode ser uma boa combinação para gerar ignorância, especialmente em países subdesenvolvidos como o Brasil.

Todos os anos vemos charlatões ganharem muito dinheiro com o pouco senso crítico do povo. São desde igrejas que realizam curas e vendem milagres, passando por práticas espíritas, toda a sorte de tipos de aplicação da astrologia, até fantásticas "descobertas científicas" como a mostrada na reportagem do SBT em seu jornal da tarde que segue. No vídeo abaixo, o cara diz que inventou um carro movido a água com adaptações feitas por ele mesmo no motor. E muita gente acredita! O SBT aparentemente acredita.

Homem que "descobriu" uma forma de abastecer seu carro com água realizando modificações num motor que gera hidrogênio - Reportagem do Jornal do SBT.

O mais interessante é que não só o SBT, mas toda a TV brasileira também segue a linha, afinal o povo emburrecido compra! Em outras palavras, para se promover e sabendo que isso tudo dá IBOPE existe um tratamento dos fatos como se fossem esses reais, vide também os famosos casos dos ET´s Bilu e de Varginha. Esse último inclusive (ET de Varginha) mexeu bastante com a sociedade numa época em que a ignorância parecia ser muito maior. O povo comprava ainda mais fácil que hoje. Pode ser que se você ver as reportagens da época agora, alguns anos depois, você se perguntará "Como alguém podia acreditar nisso?". Na época, também aparentemente, era muito mais fácil fazer as pessoas engolirem qualquer história. Não obstante os níveis de escolaridade eram bem mais baixos nesse período em comparação a hoje.

Na verdade esse fenômeno da enganação acontece de forma mais e mais sofisticada conforme o tempo passa. Por exemplo, até que James Lind realizasse em 1747 um dos primeiros ensaios clínicos da história para averiguar as reais causas do desfalecimento de marujos em longas viagens pelo mar e assim, descobrir que a falta de vitamina C causa sérios problemas ao organismo, todo mundo acreditava que o sal apodrecia as pessoas [1]. Oras, o sal não apodrece metais, madeira e outros diversos materiais? É lógico então pensar que também apodrece humanos. Para a época era óbvio! Hoje é só engraçado.

Primeira reportagem sobre o ET de Varginha exibida após o caso ter ocorrido em Minas Gerais - Reportagem do Fantástico da TV Globo.

Reportagem sobre o suposto ET Bilu, um ET Brasileiro. Reportágem da TV Record.

Contudo, como cita Carl Sagan, um famoso astrofísico americano: "Eventos fantásticos exigem evidências fantásticas". Mas para para vincular um incrível fenômeno a uma incrível evidência são necessários métodos rigorosos. Poucas pessoas se perguntam quando assistem televisão ou leem algum portal de notícias sobre qual o método [2] utilizado para comprovar os fatos que eles estão ali assistindo. Simplesmente engolem a história só por esta estar sendo veiculada na TV ou no jornal. E por julgarem verdade começam, em muitas das vezes, compartilhar tudo nas redes sociais com dizeres de "Parabéns", "Incrível", "Isso o governo não vê", "Para quê escola?".

Escola justamente para que você não compartilhe e nem acredite neste tipo de besteira!

Só para ilustrar, nos EUA existe uma fundação chamada JREF[3], foi criada por um ilusionista que construiu sua reputação trabalhando com embasamento científico e um rigoroso método de comprovação de hipóteses, seu nome é James Randi. Essa fundação mantém há 30 anos um desafio chamado "Desafio do 1 milhão". QUALQUER um que, sob o método empregado por ele, conseguir comprovar QUALQUER atividade de cunho paranormal ganha 1 milhão de dólares, simples assim. Você vai lá, faz levitar um objeto com a mente ou se comunica com um espírito e pronto, um milhão na sua conta. Nem preciso nem dizer que ninguém conseguiu até hoje pôr as mãos nesse dinheiro. E nem vai pôr, afinal, paranormalidade é uma grande besteira, como também é besteira as cirurgias espirituais feita por "hospitais" espíritas como os do médium João de Deus mostradas no próximo vídeo.

Caso famoso, inclusive internacionalmente, do médium João de Deus que realiza cirurgias e curas espirituais.

João de Deus fez fama e sucesso, apareceu em TV´s do mundo todo com seu método de extrair tumores e outros males realizando cirurgias sem materiais próprios, sem cortes e sem anestesia. Excursões são organizadas para ir até o seu centro espírita. Milhares de pessoas em busca de cura. O negócio é tão bem organizado que existe tudo! Gente que dá depoimento falando que está curada, um lugar com pintura clara e fotos antigas pelas paredes, todo mundo se veste de branco, existe uma farmácia que receita passiflora (comprimidos de maracujá que você pode comprar em qualquer farmácia), existe forte apelo religioso e, claro, a figura icônica dele próprio e de seus auxiliares - como anjos. Comum é perceber, até pelas reportagens, que grande parte das pessoas que consomem os serviços são pessoas de mais idade ou de baixa renda (escolaridade e religiosidade). No mais, essas cirurgias não são populares só no Brasil, mas em vários países do mundo. James Randi, o dono da fundação que citei a pouco, mostra como essas cirurgias espíritas feitas a frio, sem dor, são realizadas. Ele aprendeu a fazer, ele encontrou charlatões que lhe ensinaram e assim, no vídeo a seguir mostra exatamente, passo a passo, como é o método.

Como realizar uma cirurgia espiritual. Documentário da Fundação James Randi.

Muitas pessoas justificam essas práticas dizendo que, apesar dos pesares, essas pessoas dão esperança a quem está doente.

"Há.. mas eles pelo menos ajudam muita gente..."

Vale citar aqui o famoso caso do respeitado pastor americano Kenneth Hagin. Tanto ele, quanto sua irmã e seu genro, morreram de câncer e o último de doença do coração jurando terem sido curados pela fé [4]. Esse não é um caso isolado, no Brasil líderes religiosos como Edir Macedo, RR Soares, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia vendem curas em suas instituições TODOS OS DIAS, inclusive na TV, lugar onde as pessoas passam a acreditar nessas coisas. Não existe estatística, em lugar nenhum, para o número de pessoas que morrem achando que já estão curadas pela fé. Nossas leis, nesse sentido, permitem que você procure um hospital ou uma igreja se ficar doente, você é quem sabe. O problema é que nestes casos a falta de educação leva a pessoa a se tornar um fervoroso cego e por consequência, a leva também a consumir esses serviços de cura falsa.

Certa vez uma pessoa muito religiosa me disse que eu não estava ainda preparado para conseguir entender esse processo de cura pela fé. Diante do que vejo, entendo que nunca vou estar. Outra pessoa com perfil bem parecido me disse também em outra ocasião que da fé não preciso esperar explicações. A ladainha é sempre a mesma, o que não muda é o ciclo da coisa: Um esperto inventa, um bobo acredita, o esperto ganha dinheiro e o bobo perde!

O carro movido a água não tem nada de diferente das cirurgias do João de Deus (que inclusive não optou por "cura espiritual" quando teve câncer. Ele foi a um médico de verdade! [5]). A linha entre fé e ignorância é muito tênue, por isso, um pouco de ceticismo e educação não faz mal a ninguém.

[1] https://microciencia.wordpress.com/2011/03/31/james-lind-1716-94-e-o-primeiro-ensaio-clnico/
[2] http://undsci.berkeley.edu/article/intro_01
[3] http://web.randi.org/
[4] http://www.letusreason.org/wf25.htm
[5] http://g1.globo.com/goias/noticia/2015/09/internacao-de-joao-de-deus-em-sp-faz-movimento-cair-em-abadiania-go.html
Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É só um queijo?

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 13 de Fevereiro de 2015 em Medeiros, Minas Gerais

Dizem que quem nasce em Medeiros e região, depois do leite materno, prova logo com apenas alguns dias de vida um pedaço de Queijo Canastra. Só um pedacinho. O boato poderia ser julgado um exagero ou até uma mentira, mas eu nasci aqui, como é que eu vou mentir pra você que está lendo isso? 

É a mais pura verdade!

Essa verdade e várias outras são apenas parte de tantas que compõe uma das culturas mais ricas de Minas Gerais, a cultura vivida e mantida pelas cidades da Região da Serra da Canastra.

O carro de boi, o fogão á lenha, a panela de ferro, o lampião, o chão de cimento batido avermelhado, o forro de palha no teto, o assoalho de madeira pouco encerado, o filtro de barro, o rádio pendurado no barracão, cachorros, galinhas e gatos espalhados no quintal, as flores ao redor da casa, o litro descartável na ponta de uma vara de bambu pra apanhar manga, os pesinhos enferrujados daquela balança velha na varanda, o ferro de passar usado como jarro, o pão de queijo do forno de barro, o melhor pangaré, a bica d´água, o bambuzal antes da porteira, o paiol, o chiqueiro, o galinheiro, a atividade às 5 da madrugada, a conversa depois da janta às 6 da noite, o sono tranquilo, a fé dela, o cigarro de palha dele... isso, aquilo, isso, aquilo, isso, aquilo....

Eu morei na roça só até os 3 anos de idade, ou seja, praticamente nunca morei na roça (se considerarmos também que a "cidade" de Medeiros não é uma), mas como quase todo mundo aqui da região, tive um avô, um tio, um primo, na verdade um pedaço da família que leva cada um dos detalhes que citei acima muito a sério. Eu, sem nunca ter morado na roça, só por ser medeirense, canastropolitano, poderia citar inúmeros outros detalhes, ficaria aqui até amanhã. Quem vive essa cultura é detalhista, cada metro quadrado de uma roça daqui, eu garanto a vocês, possui um pingo de fuçança, um retoque pra deixar tudo personalizado. Com cara de queijo.




O tempo passa, os filhos cada vez menos querem dar sequencia a essa cultura. Todos vêem como o trabalho é pesado. Manter uma fazenda no prumo é serviço pra administrador de empresa que não ganha diploma, a faculdade dura pra sempre, as aulas são 24 horas, tem prova todo dia e a professora...  a professora é a Dona Vida.

Vejo minha mãe contar histórias dos tempos em que ela morava na fazenda e a sensação que tenho, sempre que ouço uma delas, é de que eu estava lá. Parece que eu fiz queijo a vida toda! Cada queijeira que eu entro, não importa de quem é a fazenda, me faz lembrar da minha casa. É muito sossego. Já foi muito mosquito antigamente, hoje inseriram o padrão de exportação. Padrão que está fazendo do Queijo Canastra uma coisa muito grande, assustadoramente grande. Está quase francês, me assusto quando algum conhecido produtor diz que o queijo dele possui um terroir diferenciado. A onde está indo essa roça?

Está na TV, no rádio, no jornal, na revista e na internet. Esse negócio de queijo estava tão quieto e bem acomodado ali no canto, que quando o pessoal daqui começou a montar uma cooperativa, a se preocupar com a qualidade do produto, nem sei se eles sabiam bem que tamanho esse queijo tinha. Tudo aconteceu de forma mais redonda do que imaginavam. Como cidadão que nunca morou na roça, mas comedor de queijo, eu sinto muito orgulho de ver essa cultura ser tratada como merece. Ela vai perdurar pra sempre, não tenho dúvidas.

Mas daí a a gente se pergunta: Como que dura para sempre? É só um queijo? 

A resposta é fácil, o negócio não é só um queijo, se você chegar bem perto e olhar direitinho vai ver que ali no meio daquela massa curada tem um monte de coisa misturada, tem a mão do meu avô, o cara que quase morreu buscando vaca, a plantação de milho que não foi bem esse ano, o palmito arrancado no pasto, a rua nova que abriram lá embaixo, a missa que atrasou hoje, o cientista jacu que entrou na queijeira pra pôr defeito ontem, a política pra prefeito esse ano, o gole de pinga jogando sinuca, a sanfona chata mal tocada, a chuva que atrapalhou o carnaval... um monte de detalhes separados por vírgula que fazem da sensação de escrever este texto algo bem parecido com um pedaço de queijo, gostoso até não parar mais.

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Pessoal, escrevi esse texto pois vi hoje no facebook (ainda não conhecia) um site que lançaram sobre o Queijo Canastra. Esse site mantém também um canal no youtube com vários vídeos contando um pouco da história da região, do queijo e das pessoas que produzem a nossa cultura. É muito bem feito e informativo. Sugiro a todos conhecerem. Seguem os links aí abaixo.

As fotos desse post foram feitas na fazenda do Adriel, Toin e Vilma no Córrego Fundo.


Vídeo Institucional do Queijo Canastra:


Eu comendo um pedaço de queijo kkkkkkkkkk: