sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É só um queijo?

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 13 de Fevereiro de 2015 em Medeiros, Minas Gerais

Dizem que quem nasce em Medeiros e região, depois do leite materno, prova logo com apenas alguns dias de vida um pedaço de Queijo Canastra. Só um pedacinho. O boato poderia ser julgado um exagero ou até uma mentira, mas eu nasci aqui, como é que eu vou mentir pra você que está lendo isso? 

É a mais pura verdade!

Essa verdade e várias outras são apenas parte de tantas que compõe uma das culturas mais ricas de Minas Gerais, a cultura vivida e mantida pelas cidades da Região da Serra da Canastra.

O carro de boi, o fogão á lenha, a panela de ferro, o lampião, o chão de cimento batido avermelhado, o forro de palha no teto, o assoalho de madeira pouco encerado, o filtro de barro, o rádio pendurado no barracão, cachorros, galinhas e gatos espalhados no quintal, as flores ao redor da casa, o litro descartável na ponta de uma vara de bambu pra apanhar manga, os pesinhos enferrujados daquela balança velha na varanda, o ferro de passar usado como jarro, o pão de queijo do forno de barro, o melhor pangaré, a bica d´água, o bambuzal antes da porteira, o paiol, o chiqueiro, o galinheiro, a atividade às 5 da madrugada, a conversa depois da janta às 6 da noite, o sono tranquilo, a fé dela, o cigarro de palha dele... isso, aquilo, isso, aquilo, isso, aquilo....

Eu morei na roça só até os 3 anos de idade, ou seja, praticamente nunca morei na roça (se considerarmos também que a "cidade" de Medeiros não é uma), mas como quase todo mundo aqui da região, tive um avô, um tio, um primo, na verdade um pedaço da família que leva cada um dos detalhes que citei acima muito a sério. Eu, sem nunca ter morado na roça, só por ser medeirense, canastropolitano, poderia citar inúmeros outros detalhes, ficaria aqui até amanhã. Quem vive essa cultura é detalhista, cada metro quadrado de uma roça daqui, eu garanto a vocês, possui um pingo de fuçança, um retoque pra deixar tudo personalizado. Com cara de queijo.




O tempo passa, os filhos cada vez menos querem dar sequencia a essa cultura. Todos vêem como o trabalho é pesado. Manter uma fazenda no prumo é serviço pra administrador de empresa que não ganha diploma, a faculdade dura pra sempre, as aulas são 24 horas, tem prova todo dia e a professora...  a professora é a Dona Vida.

Vejo minha mãe contar histórias dos tempos em que ela morava na fazenda e a sensação que tenho, sempre que ouço uma delas, é de que eu estava lá. Parece que eu fiz queijo a vida toda! Cada queijeira que eu entro, não importa de quem é a fazenda, me faz lembrar da minha casa. É muito sossego. Já foi muito mosquito antigamente, hoje inseriram o padrão de exportação. Padrão que está fazendo do Queijo Canastra uma coisa muito grande, assustadoramente grande. Está quase francês, me assusto quando algum conhecido produtor diz que o queijo dele possui um terroir diferenciado. A onde está indo essa roça?

Está na TV, no rádio, no jornal, na revista e na internet. Esse negócio de queijo estava tão quieto e bem acomodado ali no canto, que quando o pessoal daqui começou a montar uma cooperativa, a se preocupar com a qualidade do produto, nem sei se eles sabiam bem que tamanho esse queijo tinha. Tudo aconteceu de forma mais redonda do que imaginavam. Como cidadão que nunca morou na roça, mas comedor de queijo, eu sinto muito orgulho de ver essa cultura ser tratada como merece. Ela vai perdurar pra sempre, não tenho dúvidas.

Mas daí a a gente se pergunta: Como que dura para sempre? É só um queijo? 

A resposta é fácil, o negócio não é só um queijo, se você chegar bem perto e olhar direitinho vai ver que ali no meio daquela massa curada tem um monte de coisa misturada, tem a mão do meu avô, o cara que quase morreu buscando vaca, a plantação de milho que não foi bem esse ano, o palmito arrancado no pasto, a rua nova que abriram lá embaixo, a missa que atrasou hoje, o cientista jacu que entrou na queijeira pra pôr defeito ontem, a política pra prefeito esse ano, o gole de pinga jogando sinuca, a sanfona chata mal tocada, a chuva que atrapalhou o carnaval... um monte de detalhes separados por vírgula que fazem da sensação de escrever este texto algo bem parecido com um pedaço de queijo, gostoso até não parar mais.

------------------------------
Pessoal, escrevi esse texto pois vi hoje no facebook (ainda não conhecia) um site que lançaram sobre o Queijo Canastra. Esse site mantém também um canal no youtube com vários vídeos contando um pouco da história da região, do queijo e das pessoas que produzem a nossa cultura. É muito bem feito e informativo. Sugiro a todos conhecerem. Seguem os links aí abaixo.

As fotos desse post foram feitas na fazenda do Adriel, Toin e Vilma no Córrego Fundo.


Vídeo Institucional do Queijo Canastra:


Eu comendo um pedaço de queijo kkkkkkkkkk: