sexta-feira, 26 de junho de 2015

O pretérito imperfeito e a Máquina de Lavar

Ciniro Nametala - Escrito na noite de 26 de Junho de 2015 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Era uma vez um homem que sairia para andar de bicicleta. Juntou todo o lixo que estava na área de serviço há dias, sentiu o cheiro de cada saco preto e com nojo, os amarrou a contra gosto. Era uma terça-feira a tarde, ali pelas cinco, o dia não prometia mais nada nesse horário, nem expectativa, nada.

Ele se levantou não mais sentindo cheiro de lixo, notou a janelinha sempre aberta por onde entrava uma brisa mansa e fresca. Sentiu prazer naquilo. O fez lembrar que o clima ali era bom, bem melhor que o inferno escaldante por onde havia passado não fazia mais que seis meses. O saco de lixo era leve, mas havia um pouco de água choca no fundo, ruim de carregar.



A máquina de lavar ficava ao lado, ela estava com a tampa aberta, ele recolocou os sacos no chão e fechou a tampa. A máquina tinha nove programas de lavagem e aguentava um edredom se precisasse. Sua mãe havia mandado comprar aquela justamente por isso. Foi um pouco caro. Ele sentiu orgulho de ter uma máquina de lavar com qualidade tão esmera. Um sentimento que nutria também de forma muito semelhante pelo seu filtro de barro São João. Dava pra ver o filtro daquele lugar, lindo, marrom, suculento. Um respeitável filtro de 45 reais.

Ele pegou novamente os sacos de lixo e por alguns segundos se pôs a caminhar quando ouviu um assobio, era a máquina de lavar chamando ele. A tampa subindo e descendo enquanto os botões programáveis giravam. O motor roncava levemente quando palavras saiam. A máquina queria alguma coisa. Ele recolocou os sacos no chão. Voltou até a área de serviço, olhou para a máquina e perguntou o que ela queria com ele. A máquina respondeu que estava cansada de tanta cueca. 

Caiu um silêncio, um clima desconfortável cobriu como manta o momento ali vivido por dono e seu objeto. Ele por muito pouco não sentiu pena da máquina, até que citou pra ela o caso da lava louças que nunca reclamava de nada e trabalhava muito mais. A máquina ficou furiosa, para ela a lava louças era como uma irmã mais nova chata que só lavava pia. A lava louça não tinha sequer feito aniversário de um ano naquela casa e já estava se achando a rainha da cozinha. O sonho da máquina de lavar era ver a lava louças torcendo uma dezena e meia de calças jeans encardidas, não mais ou menos encardidas, encardidas de acordo. Mas impotente, coisa dessas ela já sabia triste que, nunca deveras, aconteceria.

A máquina entretanto queria uma posição. Roncou mais alto pedindo então pra lavar só pano de prato. Argumentou que o conjunto do todo que compõe uma cozinha não suja tanto. Dialogou em palavras complexas, gastou seu vasto vocabulário, exprimiu sua opinião fazendo valer a dignidade conquistada depois de anos de trabalho. A máquina só não fez cara de coitada pois isso ela não admitia, era um pouco orgulhosa e, somente por isso, manteve a postura na conversa. (Na verdade isso era uma coisa de marca que ela achava ser a melhor do mercado, mas não cabe aqui essa parte)

O homem não queria mais ouvir a ladainha e ensaiou colocar a máquina no seu devido lugar de linha branca, coitada com IPI reduzido, comum posse da classe média. Entretanto ele percebeu que lá no fundo a máquina só queria mesmo era um pouco de apreço. Pouco toda aquela conversa tinha haver com suas cuecas. Ficou com dó. Refletiu então e decidiu ceder um pouco na discussão. Decisão que também foi motivada pelo fato de que praticamente tudo envolta no lugar já estava prestando atenção. Até o filtro.

Ele abaixou a cabeça um pouco de lado, fez cara de sério mas com certa condescendência. A máquina já tinha percebido nessa hora que havia ganhado aquela briga. O homem foi lá, pegou o cesto de roupas, jogou tudo dentro de um balde com água sem sabão, esfregou ali uns minutos como estava mesmo. Tirou tudo, saiu andando sem olhar na cara da máquina, passou pela lava louças que amedrontada piou um fino bip, foi até a sacada na varanda onde pendurou tudo. Voltou pra cozinha, pegou os sacos de lixo, desceu pelo elevador, jogou tudo fora, pegou sua bicicleta e passeou por uma hora e 20 minutos sem suar a camisa, estava frio. 

Já era sete horas quando voltou.

Na garagem ele trancou a magrela quando ouviu gritos estranhos, adentrou correndo em seu cortiço! Isso não era coisa normal, tinham dito pra ele que ninguém ali era escandaloso. Um lugar cheio de pessoas boas, respeitáveis, educadas, cumpridoras do seu esperado papel cristão na sociedade. Ademais disso, quando ele olhou pra cima, viu a máquina na varanda urrando igual uma cabrita. Ela se debatia em prantos e rolava de um lado pro outro. Sem esperar, lá de baixo mesmo, o dono gritou perguntando pra ela o que estava acontecendo. Qual motivo levaria a tamanho escândalo e piti em público. A máquina então disse que a polícia viera nesse ínterim da bicicleta, derrubara a porta e, sem dar maiores explicações, levara todas as cuecas embora. 

Após subir as escadas, entrar no apartamento e ir até a varanda o homem parou. A cena era lastimável. O varal acabado, triste, solitário. Só os aros de ferro tremendo que nem Cruzeiro em jogo com o Galo. A máquina ali no canto desesperada gritando. As três banquetas que ficavam ali para os fumantes, que em geral mal tinham contato com as cuecas, também não se aguentavam de chorar. Um momento realmente triste. 

Não tinha muito o que fazer. Ele consolou a máquina, o varal e as banquetas. Voltou a cozinha e explicou pra todo mundo o que estava pegando. Mas no fundo ele achou um pouco bom. Todos entenderam que enquanto reclamava a máquina não sabia da importância de lavar cueca, ela não entendia que o propósito da sua vida era um pouco disso também. Chiava, fazia cara feia e torcia os botões, mas nunca tinha parado pra pensar na importância do seu papel naquela casa lavando cueca. Só entendeu quando tiraram dela uma coisa que no fundo ela gostava muito de lavar todo dia.

O dono então, e para acabar com a história, queria pelo menos tirar satisfação com alguém, nem que fosse pra vingar a máquina. Foi procurar a polícia. Depois de conversar bastante descobriu que era a lei. Fazer o quê. Regras do cortiço.

O estrago estava feito, o máximo que pode fazer depois disso foi passar o varal pra dentro.

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!