quarta-feira, 13 de abril de 2016

Fátima e Antônio: Três lembranças numa história só

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 13 de Abril de 2016 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Era uma noite chuvosa. O fornecimento de energia elétrica no início da década de 90 em muitos lugares do Brasil era precário, nem um pouco diferente disso podia ser visto nos poucos postes de madeira espalhados pelas ruas e praças de Medeiros. O cheiro de frango recém cozido na panela, a música animada de sanfona num rádio de bobina, o chão de cimento liso com marcas de pés descalços na cera vermelha. Aquela de lata, com a tampa enferrujada, dessas que você precisava furar um buraquinho no plástico pra sair, a marca era inglesa. Apesar dos detalhes, a memória mais forte é a tonalidade amarelada que a luz da lâmpada imprimia no lugar. Muita gente bebendo pinga, meus tios jovens, muita gente por ali. Por algum motivo minha mãe não sorria muito. Era natal, ela tinha que estar sorrindo, não sei com o que se preocupava, eu era criança e não tinha ainda condições de deduzir essas coisas. Só ficava matutando o porquê mesmo. Rapidamente me distraia outra vez observando aquele monte de gente rindo. Com 8 anos eu já notava bem o que era o efeito do álcool naquelas pessoas.

Eu gostava de ficar sentado numa escada de três degraus arredondados que separava a varanda da sala de televisão. Passei essa festa ora sentado nessa escada, ora brincando com meus primos na sala. A sala era enorme (pro meu tamanho). Lá estava a TV preta onde eu assistia o Satangôs enfrentar o Jaspion todos os dias na manchete. Tinha um sofá não tão grande mas macio e confortável com cheiro de poeira. Nesse lugar também, eu estava religiosamente todos os dias por volta de seis da tarde, mais ou menos nessa hora era quando o cheio de bosta de vaca inundava a casa. Era meu vô e meus tios chegando da roça, nessa época todos ainda muito jovens. Meu avô hoje é uma saudosa, recorrente e feliz lembrança. A sala era também um tipo de hub. Dali tinha-se acesso a todas as portas de todos os quartos. Porém, acerca de quartos, lembro-me só do meu mesmo com o berço e a cama recém comprada, essa equipada com um colchão ortocrim absolutamente duro. Numa outra oportunidade lhes explicarei melhor sobre o quarto e um desenho de papai noel que fiz e preguei na lateral do guarda roupas da minha mãe, dormia enquanto olhava esse papai noel. A porta principal da sala não dava para a mesma varanda onde o natal estava sendo comemorado e sim uma área externa. Nessa área externa existia um chão de cimento grosso, telhas de brasilit, um portão de ferro pra rua e uma outra escada também de três degraus, só que desta vez de cimento e enorme. Ninguém entrava na porta que essa segunda escada dava acesso. A casa ficava fechada. Nessa época isso para mim era um grande mistério. Mais tarde soube que a casa ficava ociosa esperando aluguel. Mais tarde ainda uma parte dos meus tios foi morar lá.

Em um dado momento, sentado na escada vermelha bebendo guaraná, a primeira que mencionei, meu pai chega pra mim com sua barba espinhenta e me abraça dizendo: "Será que o papai noel passou hoje?". Eu já não acreditava mais em Papel Noel, mas acreditava que a Vovô Mafalda era mulher. Vejam a cabeça de uma criança. Respondi: "Lógico que não, isso não existe". De repente ele grita: "Fatinha, leva o Ciniro lá em casa pra pegar o presente do papai noel". Minha mãe veio, já com o meu irmão segurado por uma mão, me tomou na outra e saímos pelo portão de ferro.

A rua de bloquetes era barulhenta quando passeada pelas chinelinhas havaianas que calçávamos. A Fatinha estava com um vestido florido, rosas vermelhas misturadas com outras brancas e amarelas. Ela ainda teimava em não sorrir, parecia tão triste. Lembro-me de sentir o vento noturno que subia do rio que ficava lá em baixo, no final do morro. Quando andava de mãos dadas com minha mãe eu gostava de fechar os olhos pra ver se ao abrir eu ainda estaria fazendo o caminho certo. De mãos dadas com ela, seja hoje ou seja ontem, isso é uma das coisas que sempre funcionou, andar no caminho certo mesmo que de olhos vendados. Passamos pela assombrada serraria, viramos a esquina na casa do Zé Ozanam e da Lete. Ao chegar no portão da nossa casa, entramos.

"Acende a luz mamãe". Ela acendeu, meu pai estava na cozinha bebendo água. Eu já sabia que ele era o papai noel, tinha corrido na frente e deixado os presentes, mas mesmo assim me subiu uma gigantesca ansiedade de ver o que ia ganhar. "Vai lá Ciniro, olha na sua cama!". Sai correndo, meu quarto era pra ter duas portas, dessas tipo de saloon americano que abrem juntas, mas uma era quebrada e tiramos. Empurrei a porta que tinha e, em cima daquele lençolzinho fajuto azul estava uma caixa gigantesca. Fiquei impressionado com o tamanho da caixa. Nem a luz eu havia acendido. Depois meu pai veio e acendeu. Destrocei aquele papel de embrulhar salame, agora única coisa entre mim e meu presente. No primeiro rasgo já fez um "blooouunnnnn"... subiu um cheiro de madeira novíssima... quando terminei de rasgar tudo tinha em mãos um reluzente violão clássico nylon da Gianinni. 

Eu estava muito feliz! Em meio a gritos de obrigado eu olhava pro violão, girava ele, batia nas cordas desafinadas e sabia que meu futuro depois disso com certeza era o de ser roqueiro (coisa que depois fiquei sabendo que nunca seria). Mais ou menos uns 5 minutos se passaram. Entendi e absorvi o presente e, num estalo, lembrei-me de que não sabia tocar violão, meus ânimos se acalmaram. Pensei em voltar pra festa, meu estado emocional já havia se estabilizado, foi uma boa alegria aquela ali, a do momento. Nessa hora, quando achei que a história toda já havia terminado, quando já estava até re-embalando o violão, resolvi levantar minha cabeça e olhar para porta do quarto.

Foram uns dez segundos de silêncio, parei, olhei com calma. Ali,  paradinha na porta, com a cabeça recostada no portal, cabelos caindo pelo rosto e uma feição tão mansa quanto a de uma alma liberta estava uma lembrança personificada que, diferente do violão não seria dali pra diante apenas uma mera felicidade momentânea, mas sim, estava lá naquele momento uma lembrança permanente, uma lembrança que me deixa feliz até hoje: Minha mãe não estava mais triste, depois de uma noite toda emburrada, ela agora sorria da forma mais simples possível no universo, e isso tudo, só por ver um breve momento de felicidade nos rostos de seus filhos.

Mais do que um momento feliz ou um presente, aprendi nesse dia algo bem mais valioso, aprendi um pouco do que é a verdadeira sinceridade. 

Especialmente depois de perceber que meu pai, ali pouco atrás dela, olhando aquilo tudo acontecer, acabara dizendo: "Agora cê toca!".

Antônio Nametala e Fátima Leite
Medeiros, Minas Gerais

Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

6 Comentários - :

Patrícia Namitala disse...

Tia Fatinha e Titonho. Pessoas maravilhosas.

Unknown disse...

Adorei Ciniro! Conte um dia sobre seu jornal... E tbm sobre suas "aulas" de astronomia!...

Ciniro Nametala disse...

Ótima dica Kátia! Pena que não tenho mais nenhuma edição sequer do Noticias Medeirenses. Ia ser muito legar ter uma pra apresentar e mostrar em um post. Quem sabe mais pra frente! Valeu!

Anônimo disse...

É, Parabéns Ciniro! Sempre surpreendendo! Já estava com saudades dos seus posts! Escreva mais vezes! O amor que você demonstra por sua família, principalmente por sua mãe é emocionante! Tudo de bom sempre...

jefferson disse...

Você consegui me levar ate esse dia com sua história.
Bacana pra caramba! :)

Marcos Matheus disse...

Conte sobre o dia que vc colocou a santa de castigo depois de ter rezado uma semana inteira pra ela e sua mãe não ter deixado vc ir a uma excursão da escola! Kkkkk

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