sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Jogos inesquecíveis: Atari 2600

Ciniro Nametala - Escrito na tarde de 5 de Agosto de 2016 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Na primeira vez que eu vi um vídeo game na vida acho que tinha entre 7 e 9 anos de idade. Meu tio João Gordo (que agora é magro) morava numa casa amarela e nessa casa ele tinha ligado à sua TV um Atari 2600. Na época aquilo era pra mim um milagre, uma bruxaria, eu não tinha ideia de como funcionava. Como era possível você controlar o que estava dentro de uma televisão!?  Eu via aquilo e ficava fascinado. O console era todo preto e em algumas partes era feito de madeira, o que era lindo é hoje simplesmente impensável. O joystick era um manche com apenas um botão vermelho. Nessa época diziam os velhos que não podia-se jogar muito, afinal fazer isso "estragava a televisão".



O Atari foi lançado em sua primeira versão em 1977. O desenvolvedor do projeto foi Jay Miner, um famoso desenvolvedor de circuitos integrados da época que, inclusive, projetou também partes multimídia do computador Amiga. A faísca que gerou o vídeo game foi a integração de um chip de som e imagem chamado TIA (television interface adaptor) desenvolvido por Jay, com a evolução do chip MT 6532, produzido pela MOS Technology (Commodore), empresa da Pensilvânia (EUA). Existem versões também, por isso, chamadas de Commodore. O Atari vigorou supremo no mercado durante quase 20 anos e só foi perder sua popularidade no final da década de 80/início da de 90 quando novos vídeo games mais potentes começaram a ser lançados e fazer sucesso [1].

Atari 2600 (Atari Inc. 1977-1983)
Jogos desenvolvidos para Atari eram feitos sob restrições ligadas ao hardware que hoje podemos considerar absurdas. Programador naquela época tinha que ser bom de verdade. Os desenvolvedores tinham que lidar com limite máximo de armazenamento de 4k apenas. A ROM interna do Atari era de 16k e, somente por meio de uma técnica desenvolvida na época chamada de Bankswitch, foi possível depois desenvolver-se jogos maiores. Esses transferiam dados do cartucho para a memória interna permitindo assim usar até 16k. O famoso Asteroids foi o primeiro jogo a fazer isso. Com a RAM a solução era embutir no próprio cartucho uma expansão, o que garantia um aumento de 100% da capacidade [1] [2]. Essas ideias foram amplamente usadas em vídeo games posteriores como no caso de Mario Kart, Star Fox e Donkey Kong Country do Super Nintendo que praticamente possuem um computador próprio dentro do cartucho. Hoje sofremos e reclamamos muito quando precisamos de desempenho e espaço em computadores, garanto-lhes, já foi bem pior!

Voltando a casa do meu tio, lá não existiam muitos cartuchos. Para época o preço desses aparelhos era considerado alto. Só o Atari, num valor corrigido, custaria hoje mais que R$ 2000,00 [3]. Os jogos que eu mais gostava de jogar lá eram o de "Navinha", o do "Tarzan" e o da "Chapeuzinho Vermelho". Nomes "criativos" que eu dava pra games que na época já eram ícones da plataforma. A seguir falo um pouco sobre estes meus preferidos.

RIVER RAID (1982):

River Raid (Activision - 1982)

O River Raid é um jogo de avião. Você precisa passar pelos obstáculos sem ser atingido, deve atirar em inimigos e, quando necessário (no caso sempre), deve reabastecer seu tanque de combustível. O jogo tem velocidade e dinamismo, cores fantásticas e é muito bom! Foi inspiração para inúmeras franquias que vieram mais tarde em plataformas como NES, Mega Drive e SNES. Uma curiosidade muito bacana sobre esse jogo é que ele, antes de tudo, foi um milagre da programação para a época. Desenvolvido por uma mulher, Carol Shaw, ele possui 256 fases que, todas juntas, ocupam por completo o escasso limite de armazenamento no Atari, QUATRO fucking Kilobytes de memória! Isso foi possível pois cada uma destas é gerada em tempo real (enquanto você joga) por meio de um algoritmo inteligente. Isso num Atari 2600 com 8 bits operando a 1,19 Mhz e míseros 128  bytes de RAM é incrível [4] [5].

PITFALL (1982):

Pitfall (Activision - 1982)

O Pitfall é um dos mais, senão o mais conhecido jogo de Atari 2600. Só de olhar para imagem dá pra ver o motivo pelo qual eu chamava esse game de "O Jogo do Tarzan". Foram criadas outras versões para outras plataformas depois. A de SNES/PC (Mayan Adventure) me parece que fez certo sucesso, entretanto, de longe essa daí é a mais conhecida. Na capa do jogo você pode ver um cara se balançando num cipó e deixando um rastro de arco-iris em cores térreas (O que isso quer dizer?). Abaixo dele três jacarés querendo devorá-lo e, por meio de uma escada, o acesso a uma caverna repleta de caixas, troncos rolando, morcegos e escorpiões.

Pra quem acha que Pitfall é um jogo infinito, na verdade, ele tem um objetivo. Você precisa coletar 32 tesouros em 20 minutos. Pra quem acha que Pitfall é o nome do personagem, na verdade, você está certo. Ele se chama Pitfall Harry. David Crane, o criador do jogo, disse em uma entrevista que levou 10 minutos para bolar tudo e mil horas para programar. Na época a Activision pedia para que quem terminasse o jogo com novo recorde fizesse o favor de tirar uma foto e enviar para ela. A empresa mantinha um ranking publicado periodicamente. Por coincidência, um brasileiro é o recordista mundial de Pitfall. Rodrigo Lopes está no Guiness Book de 2007 por ter, em 2006, feito 114 mil pontos sem perder vidas e faltando quase dois minutos ainda para o fim da partida [6] [7].

BOBBY IS GOING HOME (1983):

Bobby is Going Home (Bit Corporation - 1983)

Não lembro quando mas lembro da minha reação. Muitos anos depois de jogar esse jogo no Atari, certa vez, fui pesquisar (provavelmente caçando ROM pro Stella Emulator) sobre o tal "Jogo da Chapeuzinho Vermelho". Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o personagem nada tinha haver com a criança quase engolida pelo lobo. Ele era um cara! E se chamava Bobby! Bobby estava perdido e voltando para casa. Essa era a história real do jogo. Não me culpo por confundi-lo, afinal os pixels eram poucos e alguém lhe colocou um chapéu igual ao do Ventania. Nessas condições ser chamado de Chapeuzinho Vermelho pode ser considerado até lucro.

Esse game era difícil. Passar das fases iniciais já era uma tarefa complicada. No total eram sete e, caso você conseguisse chegar ao final, deveria entrar na casa do Bobby (pra mim a casa da vovô). Dizem que hoje em dia esse é um dos cartuchos mais raros, muito difícil de se encontrar e valorizado por colecionadores. Não encontrei nenhuma informação técnica sobre o desenvolvimento do game na internet, além do óbvio fato de ter sido desenvolvido pela Bit Corporation [8].

O tempo passou e hoje os jogos estão cada vez mais reais. A introdução de tecnologias como os óculos de realidade aumentada estão chegando pra mudar paradigmas mais uma vez, mas foi nessa época aí que tudo começou. Eu gosto muito de inúmeros outros jogos de vídeo games, pretendo escrever novos posts no futuro sendo um para cada console. Vou fazer isso conforme a vontade for aparecendo. Uma das coisas boas para relembrar essa época são os diversos emuladores que existem por aí, inclusive online. Nesse sentido, caso você queira conhecer ou relembrar, segue abaixo links para jogar agora esses três jogos inesquecíveis do Atari 2600. F1 para iniciar, espaço pra pular e setas para se movimentar. Divirta-se!

Jogar o Jogo da Navinha (River Raid)
Jogar o Jogo do Tarzan (Pitfall)
Jogar o Jogo da Chapeuzinho Vermelho (Bobby is Going Home)


Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Atari_2600
[2] https://thewanderingnerd.wordpress.com/2014/01/05/top-10-games-that-pushed-the-atari-2600-to-its-limits-part-1/
[3] http://link.estadao.com.br/blogs/modo-arcade/quanto-custavam-os-videogames-na-epoca-em-que-foram-lancados/
[4] http://www.riverraid.org/riverraid_history/index.php
[5] http://www.antonioborba.com/atari/os-10-melhores-jogos-de-atari-top-ten/
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Pitfall!
[7] http://www.mobygames.com/game/pitfall
[8] https://archive.org/details/atari_2600_bobby_is_going_home_2600_screen_search_console_jone_yuan_telephonic_en

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