quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Comunicado sobre o rapto dos terráqueos

Ciniro Nametala - Escrito na madrugada de 28 de Setembro de 2016 em Medeiros, Minas Gerais.

Olá Marefey!

Arla me entregou hoje suas dúvidas! Como precisamos praticar línguas antigas de planetas recém incluídos na Corporação, resolvi escrever em caracteres alfanuméricos mesmo. Se precisar consultar, procure por alfabeto romano/português/latino... Espero que não se importe.

Seguem todas as respostas de que você precisa. Espero muito que para ler isso você não use o Faceminder. Tente ler como aprendemos com o Prof. Teusak, ler, LER MESMO. Tenho feito isso nos últimos tempos e sinto que de alguma forma acabo absorvendo melhor os conteúdos ou, na pior das hipóteses, acabo me divertindo gastando meu tempo de forma indevida visto que, nesse momento, eu deveria era estar debruçado sobre a minha dissertação kkkkkk enfim...

Espero que goste!


Zany é um planeta vinculado a Corporação Espacial. Não é um planeta tão frio como comentam por aí. Na verdade é um planeta com clima bastante favorável à vida. Tão favorável que foi pra lá que levaram a maioria dos seres humanos raptados de Laryn IV no final do oitavo ciclo.

Para você que não está familiarizado com a geografia galáctica, basta pouca explicação pra entender. O "tal" pra você "Planeta Terra" hoje é chamado de Laryn IV. Ganhou esse nome pois está entre as 18 rochas ultra exploradas também no final do oitavo ciclo pela Laryn Life, obviamente foi a quarta rocha a ser explorada. A Laryn Life possui um segmento muito grande, totalmente focado em exploração de recursos para a vida. É uma empresa que trabalha diretamente e nos interesses da Corporação Espacial. Após a revelação aos terráqueos de que já existe todo um sistema político, financeiro e social consolidado há vários ciclos no nosso evento-tempo (inclusive nesta galáxia que também é deles) foi muito engraçado (como era de se esperar). O negócio causou rebuliço demais. Ficaram ali vivendo seu costumeiro caos interno criando conjecturas diversas e agindo como moléculas instáveis, sem padrão. Acordos, conversas, notícias, opiniões, brigas em espaços ditos públicos e tudo mais. Como eles mesmo dizem numa das expressões deste idioma pelo qual lhe escrevo: "andando em círculos" kkkkkkkkkkkk. 

Terráqueos são realmente criaturas que demoram muito a atingir um estado de maturidade decente sobre qualquer coisa. POR MAIS BANAL E SIMPLES QUE ESSA COISA SEJA! Gosto de citar que, após chegarem em considerável estágio evolutivo, os mesmos passaram ainda por milênios e milênios até descobrirem que combustível, calor e oxigênio geram fogo! Depois disso então, levaram mais séculos para entender que vibrações geram música! E o melhor. Muito recentemente surpreenderam a todos os excêntricos da galáxia que os acompanham quando interligaram de forma muito rústica cabos de fibra e ondas de rádio para transmitir informação kkkkkkkkkkkkk... eu sinceramente acho graça e dou minhas risadas, mas confesso que chego até a acha-los bonitinhos de vez em quando. 

Lembro demais dos dias anteriores ao rapto. Houve uma conversa prévia muito séria entre o Chanceler Laruk e o Major Mynae sobre o que fazer com eles. Muita gente achava que deveriam ser apenas exterminados visto que não tinham nenhuma consciência do seu papel no universo. Um número muito maior deles do que você pode imaginar não consegue simplesmente raciocinar logicamente, sequer se perguntam onde estão, o que fazem ali e o que existe no entorno deles próprios. Como se não fosse o bastante, um ponto que pra eles foi muito desfavorável foi o fato de que eles não agregam absolutamente nada no contexto geral, pelo contrário, destroem. Minha DataBadet está me informando agora aqui inclusive que eles já começavam a lançar sucata além da sua própria atmosfera. No fim, depois de algumas discussões apoiadas pelas sugestões dos sistemas simuladores, prevaleceu como decisão uma ideia oriunda de uma análise de sentimentos feita a partir da base de dados cruzada da Agência Sensun. Essa base é fechada e por isso só tive acesso aos resultados mais sintéticos que são basicamente os seguintes: Todos os terráqueos deveriam ser raptados, reprogramados com técnicas de implante memorial (desses implantes para estruturas biológicas em cérebros baseados em água) e, após isso, serem re-inseridos num ambiente similar ao do Laryn IV. Resolveram escolher Zany pois sua formação lembra muito o "Planeta Terra" de 4 mil anos terráqueos antes do período definido para exploração da Laryn Life. Alguns defenderam também inserir de alguma forma um conhecimento novo em sua estrutura biológica para que sejam mais tolerantes uns com os outros e assim consigam sobreviver em mais estável harmonia. Aquela lei batida demais ensinada há vários eventos-tempo nas academias de transferência.

Voltando ao assunto, no dia do rapto propriamente dito foi mais engraçado ainda. Lá na hora, bases diversas estavam indexando acontecimentos a todo evento-tempo. Apesar da pouca procura de conexões e interesse dos usuários, essas faziam isso mesmo assim, afinal para esse tipo de empresa é tão simples guardar informações que o custo para incluir isso no índice histórico é quase zero. Lá em Laryn IV, no evento-espaço (neste caso no de interesse deles) muita, mas muita gente achou que iria ganhar dinheiro, principalmente os detentores dos primitivíssimos meios de comunicação. Se você não sabe o que é dinheiro pesquise agora aí na sua DataBadet. Em resumo, é algo similar ao nosso Styll de hoje. A diferença é que existem compensações físicas palpáveis além do bit quântico convencional. É como se pra eles fosse importante ver ou saber que o patrimônio (mesmo que virtual) realmente está em algum lugar. Uma ideia estranha pois isso não tem necessariamente haver com o que eles necessitam para se manter biologicamente íntegros (já que são feitos desse tipo de estrutura aquosa). Usavam esse "dinheiro" para comprar coisas das quais não precisavam necessariamente entende? Não vou me alongar sobre essa questão do que eles adquiriam pois, sinceramente, muitos destes "itens" nem eu mesmo sei que utilidade tem.

Voltando ao dia do rapto, como já disse, o rebuliço foi grande mas logicamente durou pouco. Eles não poderiam ficar por ali muito mais tempo de qualquer forma, afinal Laryn IV já não tinha mais expectativa sequer de 8 mil anos mais (na escala do evento-tempo deles). Se eu me lembro bem tentaram avisar os governantes principais de cada território (territórios são tipo espaços onde cada um desses grupos de terráqueos se dividiam para ter poder e controle sobre os próprios recursos - uma grande bobagem também pois no fim das contas todos trocavam entre si o que produziam usando o tal dinheiro, eles chamavam isso de fronteiras, se mataram por elas inclusive em diversos momentos).

Quando Burum (nosso buraco negro de referência para espaço-tempo) emitiu a primeira frequência convertendo massa engolida em radiação, essa foi a hora que o bicho pegou. Foi cogitado acessar a atmosfera por meio de "naves", "discos" e outras coisas que já estavam no imaginário deles. O Chanceler Laruk achou que isso iria, sei lá, produzir menos eventos que gerassem emissão de químicos naturais promotores de comportamentos agressivos e, por consequência, que levassem a algum tipo de ação coletiva não catalogada ou prevista pelos simuladores. No fim, apesar dos bons argumentos optou-se por usar fendas dimensionais. O protocolo foi então seguido com bastante sucesso. Lote a lote todos foram sugados por fendas do tipo Rex em seu modelo simples. Estas foram projetadas para interferir o mínimo possível na estrutura e composição corporal de cada indivíduo. Esse desafio foi complicado, pois todos sabemos que o entrelaçamento quântico ainda não é um fenômeno entendido por completo. No processo alguns se perderam. "Perder" aqui significa a exterminação do indivíduo mesmo. Esses tiveram, na sua linha de espaço-tempo, aquele "momento" de existência findado. A grande maioria, 99,03% foram aproveitados. Menção aqui também ao recém aprimorado método de previsão LarxTend que, mesmo com todas as interferências, deu evidências de que ao ser utilizado com a DataBased pode chegar muito próximo da previsão tolerável em eventos caóticos-uniformes. Fui informado de que antes da coisa ser consumada ele previa taxa de sucesso de 98,912%. Um resultado impressionante.


Zany está agora, nesse minuto, em processo de adaptação com seus novos moradores. Humanos sentem MUITAS, sério mesmo, MUITAS necessidades fisiológicas. Nesse mesmo sentido se reproduzem MUITO rápido. Talvez esse seja o próximo grande problema do comitê da Corporação Espacial que cuida disso: Ficar lá com esse novo zoomanológico. Prover estrutura para que sobrevivam de forma sustentável não é fácil, eles não aprendem como nós. Até a última vez que eu tive notícia iam tentar implementar em algumas cobaias o implante de senso de que o início das resoluções começa pela valorização da harmonia. Eles são as vezes muito carnais e por isso perdem o foco. Trazem isso lá das suas primeiras matrizes irracionais, os símios. Acham que a interação entre dois para reprodução (ou apenas por prazer) (seja lá qual combinação de sexos for) é em muitas vezes mais importante que todo o resto. Esse, um aspecto a mais, mas não único, às vezes se sobrevaloriza em suas personalidades, levam embora aprendizados importantes em suas curtas vivências desenhadas para inevitáveis e breves passagens pelo espaço-tempo. Já fomos assim muito lá trás também, hoje sabemos que exigir dos indivíduos algo que estes não tenham capacidade de prover é sadismo, gera prejuízos muito maiores para a formação social como um todo. Estou acompanhando de perto os estudos lá em Zany. Vou tentar um estágio assim que terminar a Academia de Transferência. Tenho muita curiosidade neste assunto, quero muito obter esse conhecimento, sistematizá-lo e inseri-lo como novo tópico na DataBased. Quem sabe fora do setor HAL12 existam ainda galáxias com planetas bem parecidos aos de Laryn IV. Seria um excelente embasamento para futuros aventureiros dessa temática, hoje pouco explorada.

Se tiver qualquer outra consideração sobre o tema peço que me avise. Já estou terminando de construir meu projeto para mandar a Corporação Espacial. E obviamente, estou aceitando ajuda! :)

Espero seu contato!

Grande Abraço
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Liet-Kynes
Planetólogo (Base Intergaláctica XyX - Implante adendo 2)
Sociólogo de civilizações ermas (Base da Corporação Espacial - Disco implante Dr. Hasimir Fenring)

PS: Posso ter me confundido um pouco quanto as unidades de tempo, espaço e evento. Historicamente são umas pra nós e historicamente são outras pra eles. Já me desculpo por eventuais erros.


Obrigado por ler esse texto!
Grande abraço!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Idosos órfãos de filhos vivos: Os novos desvalidos

Ana Fraiman - Escrito em abril de 2016

Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões

A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças.

A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião.


Separação e responsabilidade

Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam.

Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar.

A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis.

A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz.

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora. para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade.

A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional.

Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato.

De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educa-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje – que justa, porém indevidamente – cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos.

Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo.

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Esse texto forte foi escrito pela Dra. Ana Fraiman, mestre em Psicologia pela USP e mantenedora do site anafraiman.com.br. Tive contato com ele através de um compartilhamento feito pelo Prof. Washington (IFMG - Campus Formiga) no facebook. O link levava a uma republicação feita na Revista Pazes. Está republicado também aqui no meu blog com ciência e autorização da autora. O artigo na íntegra pode ser acessado clicando-se aqui.